domingo, janeiro 08, 2006

Maria Rita, 07 / 01 /06


Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço
Venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar

E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

A música Encontros e Despedidas correspondeu a um dos mais fortes momentos do concerto da Maria Rita no Coliseu do Porto. Embora considere que cada concerto neste formato que a artista se apresenta é uma oportunidade desperdiçada (o espaço intimista seria a única solução para ouvir esta senhora e a sua performance atordoante), é um espectáculo que vale a pena. Talvez não os 22€ de distância ao palco. Não dormiria tranquilo se soubesse que ela esteve no Porto enquanto eu também lá estava. Abrilhanta também o "show" a banda que a acompanha. Uma delícia que podia dar um concerto sozinha (quase). Um aplauso Maria!

quarta-feira, dezembro 14, 2005

"Vai lá com calma rapaz"

Entre as conversas indagantes sobre o mistério dos tempos que se avizinham de situação pós-curso / recém-licenciatura, falou-se na forma de actuar das empresas nacionais. Ou do espírito de trabalho nacional. Por oposição ao que se passa na Suécia (fala quem lá trabalhou), onde um engenheiro procura fazer render o seu trabalho para potenciar as suas capacidades e construir um base de conhecimento, cá a regra ainda é trabalhar apenas qb, com o objectivo único de maximizar proveitos próprios. Sofremos todos com esta mentalidade.

terça-feira, agosto 23, 2005

Cyber Póvoa

terça-feira, maio 10, 2005

Ala arriba!!

Meus amigos, camaradas pobeiros e demais leitores deste espaço:

venho informar-vos que, apesar de não deixar o blog, vou deixar oficialmente de aqui escrever por uns tempos devido a excesso de actividade noutros locais e porque por ora este espaço não me serve os intentos pseudo-literários e outros que tais e não tenho tempo para me manter nos vários em que colaboro. Podem visitar www.fimdatarde.blogspot.com caso estejam interessados em ler algumas divagações e demais textos dalguns já vossos conhecidos...

Ala arriba!!

Bruno Ribeiro

sábado, abril 23, 2005

Poveiros

"Para os Poveiros todas os pássaros são terrotes e todas as árvores são pinheiros!"

sexta-feira, abril 01, 2005

Salazar, por Pessoa

António de Oliveira Salazar

Antonio de Oliveira Salazar.
Trez nomes em sequencia regular...
Antonio é Antonio.
Oliveira é uma arvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

Fernando Pessoa 29-03-1935

quarta-feira, março 16, 2005

Uma vela à luta pela igualdade e pelos direitos humanos

Num tempo em que tudo parece tão efémero e as pessoas têm tanta dificuldade em perceber que têm que se unir e lutar pela paz, através da compreensão, da tolerância, do entreajuda, da promoção da paz pela abertura e aceitação doutras culturas, partilhando um mesmo sentido de felicidade por estar vivos...por tudo isso e muito mais vale a pena lembrar certas pessoas, que puseram a sua vida ao serviço destes nobres valores.
Peter Benenson, fundador da Amnistia Internacional, morreu com 83 anos no passado dia 25 de Fevereiro. ver

At a ceremony to mark Amnesty International's 25th anniversary, Mr Benenson lit what has become the organisation's symbol -- a candle entwined in barbed wire -- with the words:
"The candle burns not for us, but for all those whom we failed to rescue from prison, who were shot on the way to prison, who were tortured, who were kidnapped, who ‘disappeared’. That is what the candle is for."


Actualmente, a Amnistia Internacional entra no seu 44º ano de existência. Tornou-se a maior organização mundial independente de defesa dos direitos humanos, com mais de 1.8 milhões de membros e apoiantes por todo o mundo.

sexta-feira, março 04, 2005

"Music to hear, why hear'st thou music sadly?"

William Shakespeare, sonnet eight

quinta-feira, março 03, 2005

"Eça de Queirós lembrou Santos Graça"

"António dos Santos Graça – autodidacta, político e etnógrafo – foi lembrado em mais uma conferência comemorativa do centenário do antigo Liceu Nacional da Póvoa de Varzim. João Marques foi quem traçou o perfil da “maior personalidade poveira”." - in Póvoa Semanário 03-03-2005

quarta-feira, março 02, 2005

Miguel Portas em Leuven

Perdoem-me a excitação e esqueçam as conotações políticas, mas não é todos os dias que janto com um deputado europeu...
João e Filipa encontram-no, um belo dia, no comboio, e resolvem abordá-lo. A aproximação é fácil e após algumas trocas de impressões, também se trocam endereços electrónicos. A um simples convite para jantar do João, Miguel Portas responde favoravelmente e aceita deslocar-se de Bruxelas até Leuven ( ok, são só vinte minutos de comboio, mas não imagino muito político a fazer o mesmo) em pleno dia de semana, para conhecer o resto da comunidade tuguinha.
"O Fado", o bom restaurante português do burgo... Classificado como um dos doze melhores restaurantes da cidade, propriedade de uma família de alentejanos, presenteou-nos com algumas pérolas da gastronomia portuguesa, ao bom som da nossa melhor música e em ambiente decorativo bastante aprasível.
Como amiga do autor da iniciativa, também fui convidada. Foi um serão excelente, onde se exaltou Portugal ( inevitavelmente), onde se partilharam experiências de parte a parte, e se falou sobre os mais variados temas, duma forma descontraída, informal, como se fossemos todos colegas... A política esteve sempre lá, obviamente, é uma forma de estar na vida. Mas discutiu-se abertamente, sem conotações partidárias, nem lavagens cerebrais ou angariações de votos. Sem dúvida, uma experiência marcante! Mais uma, de entre todas as surpresas que o programa Erasmus sempre reserva...

domingo, fevereiro 27, 2005

Naquela esplanada que conhecemos...

Ora mudando de assunto, volto a chamar a atenção para um artigo do já várias vezes citado jornal poveiro, o Póvoa Semanário. Não se pense que tenho alguma afinidade para com o jornal para além dum manifesto apreço por um jornalismo de nota, na minha opinião, para uma cidade da dimensão da Póvoa.
Voltando ao artigo, este é dum personagem conhecido dentre os poveiros, ou pelo menos dos que se mantêm ao corrente do que por cá se vai passando, o ex-Capitão do porto da Capitania da Póvoa de Varzim de seu nome Costa Rei.
Saliento o artigo não só por o crer um assunto bem pertinente para as gentes da Póvoa mas também porque é a expressão consciente dum cidadão responsável que assume isso mesmo e dá exemplo de intervençao cívica:
"Numa altura da nossa conjuntura nacional em que tanto se discute e debate sobre a ausência de participação do cidadão comum na vida pública, eventualmente revelador de uma certa apatia, alheamento e descontentamento relativamente à actual classe política cada vez mais profissionalizada, entendi poder, neste e/ou noutros espaços contribuir para uma reflexão sobre temas e assuntos que dizem directamente respeito à Póvoa de Varzim e consequentemente àqueles que se dizem “poveiros” ou que adoptaram esta terra para fixarem residência."
Acho que aborda, para além da Esplanada que é no fundo o da questão do ordenamento da orla costeira e a (excessiva) intrusão humana no espaço natural marítimo poveiro (de resto já abordado em "Construções na areia", de Fernando Nunes e João Lima), assuntos muito pertinentes; proporciono assim espaço de debate mais abrangente neste blog do que no jornal, se me permitem.
Convido portanto a que se entre em salutar reflexão e discussão sobre estes temas!

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

A república das bananas!

Na senda do que tem sido escrito, republico aqui uma pequena entrevista, muito significativa, do Prof. Hermano Saraiva.
Note-se que não pretendo com isto manifestar pontos de vista pessoais nem nada que o valha, mas sim dar a ler uma outra perspectiva, bastante interessante por sinal, de algo bastante relevente na nossa história recente para a actualidade e que talvez possa também ajudar a limar algumas arestas..


Entrevista ao Prof José Hermano Saraiva (in
Semanário 5 de Outubro de 2000)


"Noventa anos depois, podemos dizer que foram
cumpridos os princípios da República?

Tenho que responder a isso com uma pergunta. Será
que a República tinha princípios fundamentais? Não
tinha. A República mantém o estado liberal,
pequeno-burguês, da última fase da monarquia. A
República não traz nenhuma inovação sob o ponto de
vista da filosofia política em Portugal.


Mas não se inspira nos princípios da revolução
francesa: igualdade, fraternidade e liberdade?

Tudo isso se aplica à revolução de 1820. As
repúblicas do D. Carlos, ou do D. Luís, ou da D.
Maria, inspiram-se em tudo isso. Havia liberdade
completa. Podemos até dizer que havia muito mais
liberdade de imprensa antes da República do que
depois. É uma coisa curiosa como é que foi possível
criar a ideia de que foi a República que trouxe
esses valores. Esses valores existiam fortemente
implantados, teoricamente, desde 1822, mas na
realidade, depois do triunfo militar dos liberais,
porque até certo ponto, porque, em Portugal, é muito
difícil fazer uma revolução porque, no dia seguinte,
as pessoas aderem todas, ou seja, o mesmo pessoal
continua a servir os novos regimes. Foi isso que
aconteceu na República, não há assim nenhuma grande
mudança.


Então, o que aconteceu?

O que há é o triunfo de um partido, o Republicano,
que até aí tinha estado fora do poder, e que
precisou de arranjar empregos para os seus sequazes.
Então, o Diário de Governo passou a publicar grandes
listas de pessoas com o título de revolucionário
civil. Houve centenas de publicações de nomes de
pessoas que tinham a qualificação de revolucionário
civil. Um pouco como, a seguir ao 25 de Abril, houve
os anti-fascistas, que chegaram a ter nomes de ruas,
mas não eram muitos. Percebeu-se a tempo que ser
anti não era coisa nenhuma. A gente só é o que é,
não é o anti. A República trouxe essa gente e trouxe
também grandes dificuldades, porque, em 1910,
começam a processar-se grandes mudanças, começa a
indústria a ter já grandes contingentes de
trabalhadores. Portanto, começa a haver verdadeiros
problemas sociais e a haver aspirações socialistas e
laborais, de limitações do horário de trabalho, de
pensões de invalidez - toda essa política social que
hoje se reivindicamos todos os dias -, mas isso
põe-se como novidade em relação à República.


Essas reivindicações sociais só começaram em 1910?

Não, não, vêm do tempo de D. Carlos. Os ministros
socialistas são do tempo de D. Carlos. A partir de
D. Carlos os socialistas não voltam ao poder, ao
contrário do que se julga. Há aí um período de uma
grande instabilidade, por um lado, um grupo de
anarco-sindicalistas que reivindicam garantias no
trabalho, mas, por outro lado, põem em causa a
própria existência do Estado burguês. Por outro
lado, os republicanos conservadores da linha do
Brito Camacho, da linha do António José de Almeida,
tudo isso é gente muito conservadora que quer uma
República na ordem, como eles diziam. E isso conduz
à nossa entrada na Grande Guerra que, provoca,
indirectamente, o fim da I República devido à
conflituosidade social, à depreciação da moeda, ao
empobrecimento completo de uma classe que eram os
chamados proprietários, os donos das casas feitas
nas cidades depois do comboio. Antes da República há
uma coisa muito importante que é a política de obras
públicas do Fontes Pereira de Mello, que começa em
1850 e vai até ao D. Carlos. Isso permite trazer
para Lisboa os excedentes da produção agrícola,
enriquece muita gente, cria as nossas avenidas novas
e cria a classe dos proprietários.


E essa classe empobrece com a Grande Guerra?

Exacto. Porque, com rendas de 50 escudos dava para
viver na opulência e depois da Guerra 50 escudos são
uma esmola. Os proprietários sentem-se atacados,
essa gente torna-se inquieta, começa a haver o
chamado perigo da revolução comunista, porque há a
revolução de 1917 na Rússia e isso alarma muito os
burgueses dos países conservadores e isso conduz
directamente ao 28 de Maio.

Portugal beneficiou ao mudar da Monarquia para a
República?

Na minha opinião, tínhamos um grande político, que
era o rei D. Carlos, e a morte dele foi um grave
prejuízo para o País, porque não conseguimos
refazer-se disso na I República, uma vez que não
encontramos nenhum grande estadista. O homem de mais
valor que aparece na I República é o Afonso Costa,
mas ele teve sempre contra si uma reacção fortíssima
das forças dos sectores da direita. Em parte porque
ele, como foi ministro da justiça, nessa qualidade
conduziu uma política anti-clerical muito intensa e
atirou muita gente contra ele e acabou por sair do
país. Quando veio o 28 de Maio ele já estava fora de
Portugal, mas era o único homem invulgarmente dotado
de visão política. Os outros, enfim... Não tivemos
um grande estadista e isso também nos prejudicou
muito. Esses anos da I República são anos de
desagregação do Estado, de conflituosidade social,
são anos em que se acentuou o nosso atraso em
relação ao desenvolvimento económico europeu, são
anos em que se mantém uma taxa de analfabetismo
pavorosa. Chegamos ao Estado Novo com 80 por cento
de analfabetos. São anos infelizes. Com a República
perdeu-se mais do que se ganhou.


Mas com a República passa a poder-se sufragar o
chefe do Estado, em vez de ser de forma
hereditária...

Vamos lá a ver, hoje, o chefe do Estado é eleito
pelos portugueses, mas na I República era eleito
pelas câmaras de deputados e do Senado. Os deputados
e os senadores é que escolhiam o Presidente. É isso
que explica que o primeiro Presidente da República
seja o Manuel de Arriaga, que era um advogado
açoriano completamente desconhecido em Portugal.
Como é que este homem é eleito chefe de Estado? Bom,
exactamente porque o Arriaga era um conservador e no
pequeno círculo parlamentar, naquelas combinações, é
possível eleger um homem como ele, que era um homem
sério mas que de maneira nenhuma era um vulto
nacional. Não teria sido possível eleger, nessa
altura, um grande vulto que estivesse fora do
Parlamento. Era uma República excessivamente
politizada.


Quando é que o povo passa a intervir de forma
decisiva na eleição de um Presidente da República?

Nunca. Nem depois do 25 de Abril. Continua,
evidentemente, a haver jogos políticos, tudo isso
são convenções. Quem ganha as eleições é quem tem
dinheiro para fazer campanhas e as pessoas votam em
quem tiver a melhor campanha. O Presidente é
proposto pelos partidos e tem atrás de si toda a
máquina partidária. Está claro que pode ser ou não
ser uma grande figura nacional, não estou a discutir
as pessoas, mas o sistema permite que no jogo
partidário, e já temos visto, se proponham à
candidatura pessoas que estão muito longe de
merecer, sequer, o respeito nacional."

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

E até um penedo se a força chegasse

Rui Pedro Rocha, no post precedente: «Eu sei que já vão começar a mandar pedras por causa disto (...)».

Leva lá então com este calhauzorro, mais um paralelo da estrada, mais um punhado de godos da praia.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

País do terceiro mundo...

A alegria com que algumas pessoas festejam com a extrema esquerda é realmente preocupante... Será que ninguém sabe História? Será que ninguém sabe o que é que se passa nos países onde essas políticas são realizadas?
Acusam com tanto ódio (e já sei que como sempre quem se atreve a criticar a extrema esquerda na nossa "democracia" é logo acusado de fascista) Hitler pelo Holocausto quando temos no presente, países como Estados Unidos e tantos outros que assassinam todos os anos centenas de milhares de bébés, temo bem que este número seja bem maior, e agora querem começar a fazê-lo em Portugal com o dinheiro dos contribuintes? E agora querem aumentar o número de Hitlers para mais um, no mínimo é um paradoxo... O Estado a patrocinar genocído? Voltamos à extrema esquerda...
Se uma mulher for violada e passados dois meses assassinar o violador (quem pode apontar o dedo a essa mulher? Não é que alguém que seja capaz de tal barbaridade, a violação, faça falta à sociedade) é criminosa e provavelmente vai presa. Se passados esses mesmos dois meses da violação assassinar o bébé que traz consigo já não acontece nada. Eu sei que já vão começar a mandar pedras por causa disto porque isto não é tão simples assim etc etc. Eu sei. Mas quem quiser discutir isso comigo é só avisar.
Essa esquerda que quer cometer genocídio é a mesma que quer proteger os criminosos por "serem vítimas da sociedade" etc etc... Quando é que descem do alto dos ideais perfeitamente utópicos e ridículos e regressam ao planeta Terra? À vida real?
Quanto mais o conheço o Homem, mais gosto do meu Serra...

"Hoje dizemos adeus a Santana Lopes"

Citando Ana Drago, do Bloco de Esquerda.

domingo, fevereiro 20, 2005

Despedidas

É tão estranho... Afeiçoamo-nos às pessoas e depois, elas deixam de fazer parte da nossa vida. Saem da mesma forma que entraram: inesperadamente.
A residência de estudantes onde me encontro, habitada maioritariamente por estudantes do programa Erasmus, teve hoje mais uma baixa. Filipa, a portuguesa de Famalicão.
Transformam-se na nossa família, enquanto longe da verdadeira (?) e depois partem, para regressarem à sua "vida normal". É duro.
Quando bateu à minha porta, a altas horas da madrugada para se despedir, pensei: "Quem será a esta hora? ". Então abri e "Ah, és tu, Filipa, entra!" Só então caí na realidade e me dei conta que esta foi a última vez que ela o fez... A Filipa não vai mais bater à minha porta a altas horas da madrugada para conversar, porque a Filipa... foi embora.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Porque será que isto me soa tão familiar...?

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde
vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque
sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro
de lagoa morta (...)
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida
pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai
dum ventre, - como da roda duma lotaria.
A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao ponto de
fazer dela saca-rolhas; dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro
como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)"

Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896

domingo, fevereiro 06, 2005

Poveiro nas alturas!

O poveiro Artur Mota concretizou mais um sonho. No mês passado subiu ao ponto mais alto de África, o Kilimanjaro no Quénia.
Foi uma aventura que dava para um bom documentário de televisão. Artur Mota escalou o Kilimanjaro, com 5895 metros de altura, o cume mais alto do continente africano, situado na fronteira entre o Quénia e a Tanzânia. in Póvoa Semanário 02-02-2005

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Será que alguém já pensou nisto?

Queria iniciar a minha campanha bloguista com outro texto mas após mais um dos meus passeios pela marginal bonita (sentido Sul-Norte do lado esquerdo!) da Póvoa, voltei a lembrar-me desta dúvida... Alguém sabe onde as nossas queridas gaivotas poveiras nidificam e quando? Claro que este nidificar está concentrado nos seus ovos como me parece, está implícito.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

A barba de Newton

Ao que parece o frio emanado da minha posta anterior congelou as gentes e as mentes. Enfim....

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Neva!



Chamem-me provinciano, pueril ou o que mais a imaginacão permita. Vivi uma estranha alegria, proveniente do inesperado, do inédito e da beleza alva. Porque tinha alguns problemas de processamento de sinal na mente, acordei sem sequer me ter lembrado que nevara na noite anterior. Estarei eu num novo mundo?- pensei depois do impacto da paisagem branca a perder de vista, no momento de abrir a persiana. Sentir a neve a cair enqunto se pedala e o seu acariciar fresco no rosto é algo especial.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Baixa na Companha

Deixámos, a partir de hoje, de contar com a contribuicão do Catritas para o nosso blog. Consciente de que 'O Poveiro' perderá sem a inclusão dos seus textos, aqui continuarei para partilhar com a blogosfera ideias e vivências. Que o projecto continue a crescer, procurando o seu caminho, de forma progressiva. Todos crescemos com ele.

Obrigado Catri!

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Areal poveiro em mau estado

“A areia da praia da Póvoa está podre e as análises devem ser melhor executadas” - in Póvoa Semanário, 19/01/2005

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Confluencia



Diversas coordenadas, habitos e referencias confluem de forma irrepetivel no espaço em comunidades Erasmus. Assim como os cursos de agua que estao na origem do nome da cidade de Gent. Uma janela e aberta atraves da qual, aquele que estiver predisposto, ou simplesmente interessado, vislumbra um vasto mar de novidades. Novidades que podem tambem ser captadas pelos sentidos. Num partilhado, caseiro jantar preparado morosamente por um exigente cozinheiro italiano. 'Pasta alla Nduja', fragmento da pequena vila de Spilinga, no sul de Italia. Com genuinos ingredientes, que assim como a bebida de aperitvo, Amaro del Capo, sao desconhecidos ate na maior parte da Italia: nduja, parmigiano, pecorino, salame laziale. All with a nice Chianti (no fava beans). Alternativamente, Mayor de Castilla, vindo do Douro Espanhol acompanhado do jamon.

domingo, janeiro 09, 2005

Envelhecer?

"(...) tenho a sensação, por vezes, de que cada um tem a idade com que nasceu. E ficamos sempre com essa idade." - António Lobo Antunes

sexta-feira, janeiro 07, 2005

La farse du mâitre Pierre Pathelin

O recém-formado Grupo de Teatro Amador de São Pedro de Rates vai representar a farsa dum anónimo francês do século XV intitulada "A farsa do mestre Pathelin".

A estreia será no Diana-bar hoje às 22h.
A encenação é de Bárbara Maciel e a música original é da minha própria autoria.
A entrada é livre e convidam-se todos os interessados, e não só, a assistir a uma clássica sátira de costumes onde "todos os que enganam acabam por ser enganados..." - Bárbara Maciel

Para os que não puderem ir à estreia, ficam desde já também convidados a ir ao Salão Paroquial de S. Pedro de Rates, em frente à igreja românica, assistir à segunda apresentação no próximo sábado, dia 15 de Janeiro.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Interrogações toponímicas

Quem será o Almada da praça?

O Natal Poveiro



A grande festa da família, que é o Natal, celebrado em todo o mundo, tem entre os poveiros um verdadeiro culto. Pode a sardinha no mar andar às barrias, de comer as redes: o Poveiro não vai ao mar. E se está arribado fora da terra, vem a pé (...). A noite do Menino há-de passá-la com os seus, custe o que custar. in O Poveiro, de António Santos Graça.

Interrogo-me sobre a realidade do Poveiro moderno...opiniões?

Mente sã em corpo são



Após uma remodelação a clínica do Dr. Moura Gonçalves, na Praça do Almada, contempla agora um espaço artístico. A galeria acolhe mostras de pintura, oferecendo aos utentes um novo olhar nos momentos de espera.

Até 15 de Fevereiro, a galeria denominada CLOP apresenta quadros de Hercília Gonçalves, uma artista plástica natural do Porto.

A pintora tem vindo a participar em diversas exposições, colectivas e individuais, desde 1987. Em 2002 orientou acções de formação como professora formadora de serigrafia, gravura e desenho. Um espaço requintado que vale a pena visitar. in Póvoa Semanário, 5-1-2005

terça-feira, janeiro 04, 2005

Natal é como o Homem quiser

As gentes da Beira não temem o frio, enfrentam-no de cabeça erguida.
No Natal, trocam o conforto do lar pelo reencontro de velhos amigos na rua. Fazem-se grandes fogueiras em frente a cada igreja da cidade ( refiro-me a Castelo Branco), e a noite é passada de fogueira em fogueira, no aconchego da Amizade. É o "Madeiro".

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Não é um squétxe

Algures num restaurante de Coimbra, nos idos anos 60, deu-se o memorável diálogo, aqui transcrito entre um empregado, famoso pelas recorrentes calinadas, e um cliente:
- Empregado: Então, está a gostar do bifinho?
- Cliente: Já que pergunta digo-lhe que está muito mau...
- Empregado: Mas como, se ainda há pouco esteve aqui um senhor que disse que estava asqueroso?!

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Símbolos



Recordo a febre patriótica que se viveu neste ano transacto. Sempre olhei com algum cepticismo para o mar verde, amarelo e vermelho que foi crescendo nas ruas portuguesas à medida que progredíamos (selecção nacional) no campeonato europeu. Parecia-me que na origem da paixão nacionalista estava demasiado presente o futebol. E que, consequentemente, a bandeira de um qualquer clube futebolístico poderia estar pendurada no lugar da nacional. Talvez um sintoma disso mesmo e das prioridades atribuídas pelos portugueses aos simbolos nos quais baseiam o seu patriotismo tenha sido o surgimento de bandeiras com pagodes chineses que claramente não correspondem (e de alguma forma nos embaraçam) à versão oficial da nossa bandeira.

Vénus e Marte, da correspondente feminina

Do livro "A Rainha de Copas", de Matt Ridley (biólogo doutorado pela Universidade de Oxford):

" Das muitas características mentais que se pretende que sejam diferentes entre os sexos, salientam-se quatro como sendo repetíveis, reais e persistentes em todos os testes psicológicos. Em primeiro lugar, as raparigas são melhores nas tarefas verbais. Em segundo lugar, os rapazes são melhores nas tarefas matemáticas. Em terceiro lugar, os rapazes são mais agressivos. Em quarto lugar, os rapazes são melhores em algumas tarefas áudio-visuais e as raparigas noutras. Falando de um modo mais simples, os homens são melhores a decifrar um mapa e as mulheres são melhores avaliadoras de carácter e disposição - em média. (E, intrigantemente, os homens homossexuais são mais parecidos com as mulheres do que os heterossexuais em alguns destes aspectos.)

O caso das tarefas áudio-visuais é intrigante, pois tem sido utilizado para argumentar que os homens são naturalmente polígamos, [por analogia com um estudo feito com ratos]. Dizendo-o de um modo mais simples, os ratos polígamos necessitam de saber o caminho entre a casa de uma esposa e a de outra - e é certamente verdade que em muitos animais polígamos, incluindo os nossos parentes, os orangotangos, os machos patrulham uma área que inclui os territórios de várias esposas. Quando se pede às pessoas para rodarem mentalmente um diagrama de um objecto para ver se é igual a outro objecto, apenas cerca de uma em cada quatro mulheres tem uma pontuação tão elevada como a de um homem médio. Esta diferença aumenta durante a infância. A rotação mental é a essência da leitura de mapas. Mas parece ser um grande salto argumentar que os homens são polígamos porque são melhores a decifrar mapas apenas porque é verdade para os ratos.

Além disso, existem capacidades espaciais que as mulheres desempenham melhor do que os homens. Irwin Silverman e Marion Eals, da Universidade de York em Toronto, raciocinaram que a habilidade masculina nas tarefas de rotação mental, provavelmente, reflectia, não algum paralelo com os ratos machos polígamos que patrulham grandes territórios para visitarem várias fêmeas, mas um facto muito mais particular sobre a história humana: que no Plistocénico, durante um milhão de anos ou mais, quando o homem primitivo era um caçador-colector africano, os homens eram os caçadores. Por isso os homens necessitavam de ter capacidades espaciais superiores para lançarem armas contra alvos em movimento, para fazerem ferramentas, para descobrirem o caminho para casa, para o acampamento, depois de uma longa viagem, etc.

Muita desta sabedoria é convencional. Mas Silverman e Eals perguntaram então a si próprios: de que capacidades espaciais especiais necessitariam as mulheres colectoras que os homens não precisassem? Uma coisa que previram foi que as mulheres necessitariam de reparar mais nas coisas - para localizarem raízes, cogumelos, bagas, plantas - e de recordar marcos para saberem onde deviam procurar. Por isso, Silverman e Eals fizeram uma série de experiências que requeriam que os estudantes memorizassem uma imagem cheia de objectos e que a relembrassem mais tarde, ou que se sentassem num quarto durante três minutos e mais tarde recordassem que objectos estavam no quarto (foi dito aos estudantes que apenas lhes era pedido para esperarem no quarto enquanto se preparava outra experiência). Em cada medida de memória de objectos e memória de localização, as estudantes femininas tiveram resultados melhores do que os homens em 60% a 70% dos casos. As velhas piadas sobre as mulheres repararem nas coisa e os homens esquecerem as coisa dentro de casa e terem de perguntar às mulheres são verdadeiras. A diferença surge perto da puberdade, altura em que as capacidades verbais e sociais das mulheres começam a ser melhores do que as dos homens.

Quando uma família se perde durante um passeio de carro, a mulher quer parar e perguntar o caminho, enquanto o homem persiste em tentar descobrir o caminho através de um mapa ou de marcos. Este cliché está tão difundido que deve existir alguma verdade nele. E está de acordo com o que conhecemos sobre os sexos. Para um homem, parar para perguntar o caminho é uma admissão de derrota, algo que os machos conscientes do estatuto evitam a todo o custo. Para uma mulher é senso comum e joga com os seus pontos fortes nas capacidades sociais."


sexta-feira, dezembro 24, 2004

Nelinho dos Congros

Qualquer poveiro se lembra da sua original figura, caminhando na Junqueira enquanto falava ao telefone. Dir-se-ia precursor do boom do telemóvel. Alguns afirmam que o ouviram a falar com a mãe para Paris, entusiasmado com um concerto do Marco Paulo que ia assistir nessa noite; outros que o assistiram a orientar o trânsito num cruzamento perto dos Correios. Faz certamente parte do imagiário Poveiro.

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Bosch hoje



Vi o original do tríptico de Hieronymous Bosch 'Juízo Final' num museu de Brugge, por entre outros quadros de pintores Flamengos. Mais uma vez percebi o quão visionários e distantes do seu tempo alguns artistas podem ser. Para além de ser uma obra impressionante devido ao elevado grau de detalhe e à bizarria de algumas ideias, é entusiasmante pela originalidade. Esta é a sua visão do inferno, embora não a que consta do tríptico.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Cá estamos

É fácil perceber que se está na Póvoa quando se vai aos correios e se ouve as gentes poveiras. Se se passa algum tempo sentado à espera na fila, qualquer pequeno pretexto serve para começar uma fútil conversa, para mandar umas carecterísticas e saborosas 'bocas', para saudar o próximo. Tudo com o sotaque que tão bem nos caracteriza.

domingo, dezembro 19, 2004

Aquilo que somos

Prolongar a quotidiana existência, composta pelas quotidianas referências num contexto distante. Conciliar duas culturas, o que de nós existe nas diferentes culturas, viver sobre o signo da humanidade. Somos humanos, somos europeus. Diferentes referências de diferentes localizações encaixam perfeitamente, como se sempre tivessem feito parte de nós. Somos mais felizes quando percebemos que juntos vivemos para o mesmo. Procuramo-nos no que nos rodeia, e encontramo-nos e encontramos os outros.

cLOUDDEAD e a sua eclética, etérea música unem Portugueses, Espanhóis, Britânicos e Belgas. E na sua universalidade tocam o nosso íntimo, sem usar palavras comuniucam connosco.

Coleccionamos referências ao longo dos dias que nos constroem. Somos o que vivemos e fomos capazes de assimilar. De o tornar parte de nós próprios. Vivemos a novidade, o avanço e o progresso e ao regressar ao nosso berço, ao que faz parte da nossa evolução, aquilo a que chamamos lar, reconhecemo-nos e sabemo-nos mais ricos. Todo o nosso passado é partilhado com pessoas que não se reproduzem noutras geografias. E é isso que mais sentimos na hora do regresso.

from the height of the highway on-ramp we saw:
two dogs
dead in a field
glowing on the
oakland coliseum
green seats wasteland,
dogs we thought were dead...

terça-feira, dezembro 14, 2004

O sorriso mefistofélico

No séc. XXI, era das tecnologias da comunicação, permanecem os bombeiros poveiros apegados à velha tradição da sirene. Recebida a notícia de alguma calamidade, urge chamar os voluntários que estão recolhidos em suas casas, mas sempre prontos a acorrer. Toca-se pois a sirene, a lembrar os sinos a rebate de outrora. E os bombeiros vêm velozes, despejando à pressa o tinto que estavam a beber, mirando de soslaio a esposa contrafeita, apertando ainda o cinto das calças e os botões da camisa pela rua fora.

Isto a qualquer hora do dia ou da noite. O resto da população que se dane. Há calamidade, que diabo! Todos devem sofrer o sacrifício do seu sossego, mostrando-se assim solidários e fraternos com os que são atingidos pelos azares do fogo, das inundações, e do gato que não desce da árvore.

Mas não há telemóveis e afins?, pergunta o cidadão abruptamente acordado, pergunta o melómano interrompido nas suas sinfonias, pergunta o tasco de discussão em suspenso, pergunta o professor vendo a aula paralisada, pergunta o Romeu que leva com tamanho imprevisto enquanto declama um último poema fervoroso à sua Julieta.

Há pois telemóveis. Mas há também coisas que não se entendem e que nenhum sentido fazem. E há também, imagino, o sorriso mefistofélico do bombeiro encarregado de soar a sirene...

quinta-feira, dezembro 09, 2004

homenagem

Caimos de forma demasiado súbita no imediatismo. Ainda não tivemos tempo de nos adaptar. O que acontece a milhares de quilómetro vive-se em horas como se na vizinhança se passasse. Um fragmento da minha juventude desapareceu. Um símbolo e uma referência, ainda que discreta. Violentamente. A frieza dos factos assola-me. E quando vou inserir a minha password, custa.

Diamond 'Dimebag' Darrell, 1966 - 2004

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Aquilo que nos une

There are those who say that a native will not speak to a white man. Error. No man will speak to his master; but to a wanderer and a friend, to him who does not come to teach or to rule, to him who asks for nothing and accepts all things, words are spoken by the camp-fires, in the shared solitude of the sea, in riverside villages, in resting- places surrounded by forests—words are spoken that take no account of race or colour. One heart speaks—another one listens; and the earth, the sea, the sky, the passing wind and the stirring leaf, hear also the futile tale of the burden of life.

in Karain: A Memory de Joseph Conrad

terça-feira, novembro 23, 2004

Crendices

Acabo de tentar abrir O Poveiro e algo se passou. Por um misterioso capricho electrónico, nada mais vi no ecrã do que o cabeçalho do blog e o título da posta precedente. «Exílio.» A vermelho, imperativo, dominante, urgente, um grito de alerta, uma injunção veemente, uma síntese certeira.

Será o Grande Arquitecto agora também a mandar sinais via ciberespaço?

quinta-feira, novembro 18, 2004

Vila do Conde e Póvoa de Varzim aderem à marcha lenta contra portagens no IC1

A Comissão de Utentes do IC1 de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, hoje criada, vai aderir à marcha lenta marcada para dia 27 na Estrada Nacional 13 contra a introdução de portagens no itinerarário, disse à Lusa o porta-voz da organização.

Camilo Gomes revelou que os 15 membros fundadores da comissão de utentes e todos os outros que, entretanto, aderirem ao protesto vão percorrer a EN13 entre Viana do Castelo e o limite Sul do IC1, já rebaptizado A28, em protesto contra a decisão do Governo de cobrar portagens nesta via.




Nos Baixos sê...

Decidido em contornar a recorrente costela latina, que ocasionalmente faz realçar diferenças entre estudantes estrangeiros e belgas, saí da cama 50 mins antes do início da minha primeira aula em Inglês. O professor teve uma atitude tão generosa ao decidir dar a sua primeira aula numa lingua estrangeira (em bastantes anos de carreira, suponho) com apenas um aluno estrangeiro entre 12, que um atraso académico de 10 minutos simplesmente não era uma opção.
É impressionante a quantidade de transito que circula numa estrada Gentiana às 7h40 da manhã. Aparentemente não me levantei assim tão cedo...
Pegar na bicicleta e come
çar a pedalar, ainda noite e com morrinha a bater-nos na cara, meios a dormir e com escassas horas de sono, custa. Sentem-se os elementos
perto. Revisitamos um pouco do sofrimento da classe trabalhadora rural deste e doutros tempos idos. Vivemos assim tão distantes?
30 segundos depois parei para apertar o casaco: movimento significa amplifica
ção do frio. Após um minuto de crescente irritação (parece que estava para entrar o piano da Aimee Mann, tal como no anúncio da prevenção rodoviária; fechos "zip" e luvas...) consegui o resguardo pretendido e zarpei a velocidade de cruzeiro. Depois das sempre novas peripécias ciclísticas, e depois de me cruzar com uma quantidade impressionante de estudantes em mobilidade (tradução livre) aparquei no famoso 41. Ofegante mas orgulhoso, entrei na sala às 8h30, onde todos os restantes alunos já se encontravam sentados, a trocar palavras de sauda
ção com o professor.

sexta-feira, novembro 12, 2004

A culpa (também) é nossa, já sei...

Ponti no Porto, jazz em Guimarães, blues em Viana.

E cá na terra?

domingo, novembro 07, 2004

Culturómetro

Na passada quinta-feira (dir-se-ia Donderdag por estas bandas) fomos ao pequeno e alternativo 'Film-Plateau', auditório universitário onde passam filmes de géneros e proveniências múltiplas. Fomos até lá para ver 'Un chien andalou' de Buñuel e 'La coquille et le clergyman' de Germaine Dulac. Para repetir a experiência enriquecedora que foi ver 'Nosferatu', versão muda, original, de 1922, acompanhada por piano ao vivo. Porque chegamos às 20h, hora de início da projecção, ficamos à porta. Lotação esgotada. O Paulo comentou: ‘se fosse no Porto estavam duas ou três pessoas na sala’. Em Inglês, claro, para que as amigas belgas percebam as diferenças.

quarta-feira, novembro 03, 2004

Técnicas de Tradução de Inglês

Esta terça-feira, dia 2 de Novembro, tive a oportunidade de andar no metro do Porto. E com que espanto reparo que, finalmente, substituíram as estranhas locuções que anunciavam cada paragem. Em vez de "next station", temos "next stop". Em vez de "is connection", "has connection". Em vez de "the next station- Campanhã- is connection with cipi - iniciais da empresa de caminhos-de-ferro portugueses, lidas com pronúncia inglesa (pergunto-me o que pensaria um turista que ouvisse isto)- and bus", "the next stop - Campanhã - has connection with trains and buses".
Interrogo-me sobre o que terá motivado esta mudança. Talvez - contrariamente ao que já chegava a pensar - os frequentadores deste meio de transporte, não sejam todos surdos e/ou ignorantes. Melhor assim...

segunda-feira, novembro 01, 2004

O que é que mudou?!

"Luís Bernardo estava sentado à secretária de trabalho, entretido a ler os últimos jornais recebidos de Lisboa. A grande sensação de momento na capital era a expansão, já em números razoáveis, dos primeiros automóveis, e a realização das primeiras corridas de automóveis, dotados «com motor de explosão, movido a gasolina, capaz de transportar o chauffeur e ocupantes a uma velocidade de cinquenta, sessenta ou até setenta quilómetros por hora!». Ele lembrava-se ainda que o primeiro encomendado, uns anos antes, fora um Panhard-Levasseur, para o conde de Avillez, e, logo na viagem inaugural, entre Lisboa e Santiago do Cacém, registara-se o primeiro acidente mortal causado por um automóvel, quando um alentejano, montado no seu burro e surpreendido pelo aparecimento daquele estranho engenho, se chegou perto demais para o observar, e foi atropelado pelo chauffeur, com a consequente morte do burro. O jornal recordava esse acontecimento histórico, ao mesmo tempo que contava que nas íngremes ruas de Santiago do Cacém, durante o Verão, quando o conde de Avillez passava montado no seu Panhard, era precedido por um criado de libré que avisava: «apaguem os fogareiros, que vem aí o gasolina!». Os cientistas portugueses consultados pelo jornal estavam divididos quanto ao futuro daquele meio de transporte: havia quem visse nele o princípio de uma época revolucionária que rapidamente destronaria todos os outros meios - como sucedera com os «eléctricos», que, poucos anos antes, tinham tornado obsoletos os «americanos», puxados a mulas - e havia quem lhes predissesse uma curta, atormentada e acidentada vida. O Professor Aníbal Lopes, da Faculdade de Sciencias, assegurava mesmo que «um engenho movido a motor de explosão só poderá ter como destino habitual aquele que o seu próprio nome indica: a explosão». Outros, como o Professor José Medeiros, viam no combustível utilizado - a gasolina - a razão primeira para a falta de futuro daquela máquina, «devido à raridade mundial de tal combustível, de que as poucas jazidas existentes à face do planeta não asseguram mais do que um par de anos de abastecimento a tão inútil como fugaz descoberta». Quem não parecia comungar desse pessimismos era o Sr. Henrique Mendonça, « ilustre colonialista e benemérito das ilhas de S. Tomé e Principe», que recentemente, informara o jornal, tomara de arrendamento as cocheiras do Palácio do Marquês da Foz, aos Restauradores, «onde se propõe montar o primeiro stand de venda de automóveis em Portugal, por conta da marca Peugeot». O mesmo Sr. Henrique Mendonça, que, recordava ainda o jornal, inaugurara há menos de um mês o seu magnífico palacete no Campo Santana, dominando toda a cidade do alto da colina, e cuja festa de inauguração batera, em fausto, abundância e glamour, tudo o que Lisboa estava habituada a ver, nos últimos anos. Luís Bernardo sorriu interiormente, ao pensar na visão, no fausto, no glamour e nos dotes de benemérito do senhor da roça Boa Entrada. Terá ele mandar ir dois pretos de S. Tomé, de tochas na mão, para receber os convidados à entrada da festa de inauguração do seu «magnífico palacete»?"
in Equador de Miguel Sousa Tavares

quinta-feira, outubro 28, 2004

Partidas & Chegadas, II

Devagar se ajeitam as estrias
de um lugar rectangular em
que se permitem da leveza levantar
barcos que rumam para longe
que navegam em distâncias fundas
por entre escafandros e hélices
que dormem na superfície das emoções.

Fernando Nunes, Agosto 2004

domingo, outubro 24, 2004

Presidenciais

THE 14 DEFINING CHARACTERISTICS OF FASCISM

By Dr. Lawrence Britt
Free Inquiry Magazine / Spring 2003

Dr. Lawrence Britt, a political scientist, studied the fascist regimes
of Hitler (Germany), Mussolini (Italy), Franco (Spain), Suharto
(Indonesia), and Pinochet (Chile). He found the regimes all had 14
things in common, and he calls these the identifying characteristics of
fascism. The article is titled 'Fascism Anyone?', and appears in Free
Inquiry's Spring 2003 issue on page 20.

1. Powerful and Continuing Nationalism
Fascist regimes tend to make constant use of patriotic mottos, slogans,
symbols, songs, and other paraphernalia. Flags are seen everywhere, as
are flag symbols on clothing and in public displays.
2. Disdain for the Recognition of Human Rights
Because of fear of enemies and the need for security, the people in
fascist regimes are persuaded that human rights can be ignored in
certain cases because of "need." The people tend to look the other way
or even approve of torture, summary executions, assassinations, long
incarcerations of prisoners, etc.
3. Identification of Enemies/Scapegoats as a Unifying Cause
The people are rallied into a unifying patriotic frenzy over the need
to eliminate a perceived common threat or foe: racial , ethnic or
religious minorities; liberals; communists; socialists, terrorists,
etc.
4. Supremacy of the Military
Even when there are widespread domestic problems, the military is given
a disproportionate amount of government funding, and the domestic
agenda is neglected. Soldiers and military service are glamorized.
5. Rampant Sexism
The governments of fascist nations tend to be almost exclusively maledominated.
Under fascist regimes, traditional gender roles are made
more rigid. Divorce, abortion and homo-sexuality are suppressed and the
state is represented as the ultimate guardian of the family
institution.
6. Controlled Mass Media
Sometimes to media is directly controlled by the government, but in
other cases, the media is indirectly controlled by government
regulation, or sympathetic media spokespeople and executives.
Censorship, especially in war time, is very common.
7. Obsession with National Security
Fear is used as a motivational tool by the government over the masses.
8. Religion and Government are Intertwined
Governments in fascist nations tend to use the most common religion in
the nation as a tool to manipulate public opinion. Religious rhetoric
and terminology is common from government leaders, even when the major
tenets of the religion are diametrically opposed to the government's
policies or actions.
9. Corporate Power is Protected
The industrial and business aristocracy of a fascist nation often are
the ones who put the government leaders into power, creating a mutually
beneficial business/government relationship and power elite.
10. Labor Power is Suppressed
Because the organizing power of labor is the only real threat to a
fascist government, labor unions are either eliminated entirely, or are
severely suppressed.
11. Disdain for Intellectuals and the Arts
Fascist nations tend to promote and tolerate open hostility to higher
education, and academia. It is not uncommon for professors and other
academics to be censored or even arrested. Free expression in the arts
and letters is openly attacked.
12. Obsession with Crime and Punishment
Under fascist regimes, the police are given almost limitless power to
enforce laws. The people are often willing to overlook police abuses
and even forego civil liberties in the name of patriotism. There is
often a national police force with virtually unlimited power in fascist
nations.
13. Rampant Cronyism and Corruption
Fascist regimes almost always are governed by groups of friends and
associates who appoint each other to government positions and use
governmental power and authority to protect their friends from
accountability. It is not uncommon in fascist regimes for national
resources and even treasures to be appropriated or even outright stolen
by government leaders.
14. Fraudulent Elections
Sometimes elections in fascist nations are a complete sham. Other times
elections are manipulated by smear campaigns against or even
assassination of opposition candidates, use of legislation to control
voting numbers or political district boundaries, and manipulation of
the media. Fascist nations also typically use their judiciaries to
manipulate or control elections.

terça-feira, outubro 19, 2004

O preço da interioridade?

Dezoito de Outubro de 2004. Vinte horas e trinta minutos. Entroncamento. Entrei num autocarro, na Póvoa, às 13.40h. O intercidades mudou de horário (obviamente, ninguém me avisou) e, em vez do das 16.10h, que me habituara a apanhar no ano lectivo anterior, por cinco minutos de sorte, consigo apanhar o das 15.10h. Acharam, por certo, que uma hora de seca, não era o suficiente para conhecer esta belíssima (notar o elevado tom de ironia) cidade (?), que é o Entroncamento. Agora sim! Com três horas de espera no Entroncamento, para obter uma ligação para Castelo Branco, já se pode ter uma outra perspectiva da terra dos fenómenos.
Entro no intercidades que me levará até Castelo Branco. A conversa entre os passageiros é sobre a pequena Joana, do caso da Figueira. Cada senhora, todas acima dos 50 anos, quer acrescentar mais um pormenor à narrativa horrorosa. Fico a saber que as últimas averiguações indicam que a criança foi esquartejada, guardada, aos pedaços, no frigorífico, e dada, periodicamente, aos cães (??). Recuso-me a ouvir mais pormenores horrendos! Mas que fazer?
A juntar a este cenário maravilhoso, há um homem com cara de débil mental, que me espreita por entre os bancos, de cima a baixo, de cinco em cinco segundos, enquanto esboço esta posta. Já tive coragem para lhe perguntar se queria alguma coisa (o que, para alguém tão pacífico e civilizado como eu, revela bem o estado de revolta em que me encontro), ao que ele me respondeu, muito naturalmente, que não. Desde então, tem diminuido a frequência de olhadelas que, ainda assim, é alta o suficiente para me por nervosa, muito nervosa! Irritada!
Ler nem pensar! Trouxe três livros para alternar, em caso de cansaço, mas já não consigo assimilar nada! E, além disso, o volume sonoro das conversas já não me permite concentrar, a esta hora do dia...
Resta-me o meu bom amigo Dvorak... É que a esta hora, nem luz existe, para contemplar a paisagem! Essa sim, vale a pena!
Dvorak, onde quer que estejas, obrigada por teres posto o teu intelecto ao serviço da música e por teres dispendido algum do teu precioso tempo a desenhar bolinhas e pauzinhos ao longo de uma folha pautada, para criar este quarteto para piano e cordas, Op. 87. Mal tu sabias a importância que esta obra iria ter: impedir o homicídio do passageiro perturbado que viaja à minha frente!
Será isto Portugal? Ou o comboio descarrilou para outra dimensão sem que eu me tanha apercebido?

segunda-feira, outubro 18, 2004

Memórias da ferrovia (III)

Uma noite de Inverno, de regresso à Póvoa, dormia eu aninhado num canto da carruagem, cabeça encostada ao vidro gelado da janela, trepidando em sincronia com esta. Tinha embarcado exausto de um dia venturoso, e havia logo ferrado no mais profundo dos sonos, antes ainda da Avenida de França.

Acordei de súbito com uma mão que me abanava o ombro, em imperiosa urgência. Alarmado, abri os olhos e a custo readquiri o conhecimento da minha posição no espaço-tempo. O barulho do comboio aos trambolhões pela linha fora mal abafava a bátega que caía na escuridão do exterior. Habituando a visão à luz pálida da carruagem, reparei que para além de mim só habitava o compartimento o óbvio responsável pelo meu acordar contrafeito: o revisor. De farda e alicate na mão, símbolos de ferroviária autoridade, olhava-me impaciente; e também com um leve desdém, como se houvesse algo de censurável em dormir no comboio. Para mais, estava ele de pé e eu sentado, acentuando a submissão a que as circunstâncias inexoravelmente me vetavam.

Sentindo-me de pronto acusado de ignominiosa contravenção, tratei de procurar o bilhete, enquanto escondia a ansiedade num amplo e provocatório bocejo. A busca nos bolsos das calças, fazendo tilintar as chaves de casa, cedo se mostrou infrutífera. Passei à carteira. Vasculhei a zona das moedas e a das notas, tirei os cartões e inspeccionei o forro. Nada. Em jeito de desculpa, murmurei ao revisor um «Está difícil...», sem me dar ao trabalho de sorrir. O homem não respondeu, só se ouvia o comboio e a chuva, e aumentava-se-me o nervosismo com o lento passar dos segundos. Enfiei então as mãos nos bolsos do casaco, tacteando por entre lenços amarrotados e papelada sortida. Lá me vi obrigado a espalhar toda essa tralha sobre o banco, sentindo a repreensão crescente do revisor mal-humorado. Mas nem assim encontrava o raio do bilhete. Ainda me levantei, procurando no assento e no chão, também sem sucesso. Recordei-me que o bilhete era de ida e volta, sabe-se lá onde o teria enfiado aquando da ida... E ao longo de todo um dia não haviam faltado ocasiões para o ter perdido, bela merda.

Mas então, num esgar de passagem, num milagroso instante, dei com ele! Entalado no caixilho metálico da janela! Não me lembrava de o ter posto lá, nem era meu hábito fazê-lo, mas tive a certeza de que aquele era o meu bilhete, não sei explicar porquê. Peguei nele e estendi-o ao revisor, que me mirava atónito e desconfiado. Virou-o e revirou-o e inquiriu: «A que horas saíste hoje da Póvoa?» «Humm, às duas...», respondi. Batia certo com o carimbo aposto no verso do bilhete, atestando a hora a que fora vendido. Ainda intrigado, lá o picou, devolveu-mo, e seguiu caminho.

Embalado pelas bruscas oscilações do comboio, voltei a adormecer.

segunda-feira, outubro 11, 2004

Partidas & Chegadas

Esta coluna expõe alguns textos escritos pelo Catritas durante as filmagens do 'E Nos Últimos Dias?' (Título provisório)


Se eu ficar junto à loucura
sem manhãs claras e verdura
ouve-me apenas o lamento
o turbilhão de um corpo em sofrimento
a face corrompida e dorida
da monumental hipocrisia reinante

Fernando Nunes, Agosto 2004

sexta-feira, outubro 08, 2004

T.G.B.

Combóio rápido à moda do Porto? ("Train à grande bitèsse?) Quase... Tuba, Guitarra e Bateria. Sérgio Carolino, Mário Delgado e Alexandre Frazão, respectivamente.
A formação é original, a abordagem musical também.
As apresentações ao vivo falam por si, mas temos disco!
Raro! Um agrupamento desta qualidade e já com produção discográfica!
O domínio dos instrumentos é fascinante e partilhado pelos três elementos. Dá para sentir orgulho, ver como brilham.
Portugal não é um amontoado de coitadinhos à espera de oportunidades caídas do céu. Há gente com talento e disposta a usá-lo, gente que sonha e concretiza, gente que não precisa de ir lá fora para realizar obra, gente que luta... cá dentro!

Capital do desporto, cultura e lazer?

Ainda glosando o mote dado pelo companheiro Sousa (ali em baixo), sempre achei idiota tal urgência das autarquias em encontrar um slogan desse tipo. É que por regra o tiro sai ao lado, e o garboso epíteto mais não mostra precisamente aquilo que falta fazer. Não convencendo ninguém, tudo o que permite é o escárnio da população minimanente interessada. Lembro de uma vez que acordei e por toda Coimbra se lia «Cidade da cultura e do conhecimento». Como, para uma cidade daquelas características, a crítica mais que generalizada se exasperava exactamente com a falta de cultura e conhecimento, as gargalhadas não tardaram em se fazer ouvir. Depois mudaram para qualquer coisa ainda mais parola, como «história com futuro» ou assim, talvez por se darem conta do ridículo, ou talvez porque o lobby hospitalar não gostou de não ver constar a «saúde» entre a «cultura» e o «conhecimento».

Ora na Póvoa, essa digna «Capital do desporto, cultura e lazer» (nem mais!), logo surge uma primeira interrogação. Capital em relação a quê? Decerto que não do mundo, nem da Europa, nem do país, nem do Norte, nem do distrito do Porto. Só se for então do concelho...

Por outro lado, das duas uma: Ou o responsável pela altiva proclamação tem uma lata desgraçada, não temendo o ridículo da publicidade que faz. Ou, ainda mais preocupante, não conheceu nunca, nem por fotografias, uma capital do desporto ou da cultura ou do lazer, pelo que está plenamente satisfeito com aquilo que se passa aqui na terrinha.

Memórias da ferrovia (II)

Sol a pino, num qualquer anormalmente abafado princípio de tarde de outrora, apressava-me eu na direcção da estação, olhando de quatro em quatro largos passos para o relógio de pulso. «Vai ser mesmo à justa...», pensava. O suor já me pingava das têmporas, que a manhã tinha aparecido enevoada, enganando toda a gente, e vinha eu então com roupa em excesso.

Perder o comboio estava fora de questão, no Porto esperava-me o impreterível para daí a uma hora. Foi pois em estugadíssima marcha que entrei na estação e me dirigi à bilheteira, sem fila, uma sorte. «Um prá Trindade», ofeguei, pousando o dinheiro trocado no tampo do guichet. Mas mal recebo o bilhete ouço o comboio a apitar, anúncio da partida irrevogável.

Desatei a correr por ali fora. O comboio, ainda em marcha lenta, levava-me já considerável avanço. Mas eu era mais rápido e não julguei impossível alcançá-lo. Ou, mais provavelmente, nada julguei, e corri com quantas pernas tinha no mais irracional dos desesperos. À porta da última carruagem, um magote de militares incentivava-me com alarido. «Corre! Corre!» E eu lá ia, como um doido, estação fora. Alcancei o comboio, atirei com a mochila lá para dentro, e agarrei-me ao braço que um dos tropas me ofereceu, içando-me.

Não tive tempo para respirar fundo de satisfação. Mal meti os pés na carruagem o comboio dá-lhe para travar, começando então a fazer marcha atrás. Reparei que no cais a maioria dos passageiros ainda esperava para entrar, rindo do meu sprint esbaforido. Ainda hoje não vejo objectivo naquela simulada manobra que não a minha humilhação cruel. Os tropas gozavam que nem perdidos... Eu ri também (que mais havia de fazer?) e fui procurar um lugar do lado da sombra, em que a napa amarela não estivesse tão quente. Desfazendo-me de casacos e camisolas, preparei-me para os habituais cinquenta minutos de solavancos. O comboio partiu pouco tempo depois.

segunda-feira, outubro 04, 2004

Dos Baixos, pois claro!

Aaaaah!! A estímulo intelectual que representa um simples olhar e posterior 'click' na opção «create», no nosso estimado blog. É claro que co-habitamos num pequeníssimo pedaço de terra virtual, um recanto perdido da imensa blogosfera, galáxia reduzida do indizível universo mundo-abrangente da Rede. No entanto a capacidade de poder exprimir uma pequena parte daquilo que cá por dentro fermenta é inquietante. Do vasto espectro temático, por onde começar? É um prazer ver este projecto crescer e ficar para aqui a pensar até onde irá parar. Como uma conferência pública, por alturas de Agosto na Póvoa, no auditório da lota, num fim de tarde onde algures se pedala para sair de uma cansativa estrada de areia?; ou uma entrada num livro biográfico sobre um dos seus selectos participantes, que contribuiu de forma eloquente para os desígnios da 'Companha Poveira'?; ou talvez com a roufenha e cansada rotina da jantarada anual. Talvez seja este o pequeno e misterioso trampolim que iniciará um discutido nos bastidores movimento cultural que agitará de forma indelével as vidas dos poveiros.

Cito o ausente-presente Joxo, o próprio citando um poema de O'Neill creio, que ainda estou para encontrar,
O artista tem que tentar muitas vezes até acertar.
Com pretensões que não vão além de a de um simples cronista a esboçar uma pequena partilha, por estes lados lá vou tentando.


PP (Post Postum): O blog reclama a contribuição do grande primo. Pelo menos é essa a minha visão. Venha ele...!

Um rótulo ameaçador

Para uma cidade que se arroga o epíteto de “Capital do Desporto, Cultura e do Lazer”, há que confessar que a Póvoa deixa muito a desejar. E há que admitir que este rótulo não é propriamente uma âncora eficaz, capaz de atrair turistas e visitantes em barda. Pior: em caso de inconformidade entre a teoria e a prática, como parece ser o caso, é passível de custar uma reputação ridícula à cidade e lançá-la sem retorno para o já mui preenchido anedotário nacional. Vamos por partes, então.
Desporto: com o Varzim em maré negra, a sede penhorada, o estádio envolvido num futuro negócio de especulação imobiliária, o Desportivo da Póvoa em queda, o atletismo à procura de melhores dias, continuamos à procura de razões para sorrir neste capítulo. Capital do infortúnio e deficiente gestão desportiva seria uma “tagline” bem mais apropriada.
Cultura: para além do mediático Correntes de Escrita e do reputado Festival Internacional de Música não há mais nenhum acontecimento digno de ser inscrito no mapa da cultura (com C maiúsculo, entenda-se) nacional. Aplaude-se a continuidade anual dos projectos, mas, como cidadãos de insaciável sede cultural que são aos poveiros, pede-se mais. Mais teatro (avança a passo de caracol a recuperação do Cine-teatro Garret), mais música (ai que saudades do Cais do Rock!!!), mais cinema (não fosse o Octopus e a oferta da Castello Lopes poderia impulsionar o mercado das lobotomias em Portugal), mais dança (temos de contentar-nos com as humildes sessões da Gimnoarte). Falta um pouco de tudo, na verdade. E lá voltamos nós a entrar no discurso evasivo das restrições orçamentais...
Lazer: acabaram-se os apoios, terminou o Capital Radical, extinguiram-se os motivos para incluir o vocábulo ‘lazer’ nos cartazes de boas-vindas à cidade. Resta-nos o Casino, pois claro, que já teve o condão de atrair comunidades inteiras de insectos oriundos dos quatro cantos do planeta à custa dos néons vermelhos e amarelos que semeou no topo de um edifício que é um dos últimos redutos arquitectónicos locais. Com alguma sorte, ainda cai o ‘l’ de lazer e ergue-se um ‘j’ em seu lugar. Tudo somado, talvez nessa altura possa formalmente proclamar-se, no que à actividade turística diz respeito, “paz à sua alma”.

O declínio do império do lazer

É absolutamente exasperante constatar que os preços praticados nos equipamentos geridos pela Câmara da Póvoa funcionam numa razão inversamente proporcional à qualidade do serviço. O exemplo da polémica Varzim Lazer, EM é gritante. Ao invés do que seria legítimo esperar, a actualização regular do tarifário tem correspondido, não à optimização de recursos, mas a uma delapidação da estrutura.
No caso das piscinas, a condição precária das torneiras de alguns chuveiros anda de mãos dadas com um aterrador manto de humidade que se tem apoderado gradualmente do balneário masculino. Um retrato pouco acolhedor para os utentes e pouco abonatório para os gestores da empresa. Se dermos um salto até ao pavilhão municipal, igualmente sob a alçada da autarquia, o cenário não é mais risonho. O temporizador automático do chuveiro faz jorrar a água durante cinco segundos, o que, bem vistas as coisas, até pode ser encarado como um exercício benéfico para os dedos (sobretudo os que se querem musculados). Pelo menos para quem vem do ginásio subterrâneo, onde os halteres desaparecidos há quase dois anos continuam por repor. Será que alguém é capaz de introduzir no dicionário autárquico o conceito de manutenção?
Tenho que reconhecer que as situações supracitadas parecem (sê-lo-ão, efectivamente) minudências aos olhos de um executivo municipal assoberbado por 1001 tarefas de maior envergadura. Feita esta ressalva, é, por outro lado, fácil concluir que por alguma razão se criou uma empresa autónoma (gerida com fundos camarários): precisamente para que os espaços desportivos do concelho não ficassem ao abandono. Ora, perante esta definição de competências, e uma vez que os utentes pagam com esforço um serviço que se exige de qualidade, não cabe a outra entidade que não a Varzim Lazer, EM zelar pelo bom funcionamento do equipamento. Ou então, em caso de impossibilidade de cumprir esta premissa, prescindir da actualização dos preços. É que não pode ser sempre o cidadão comum a equilibrar a balança anual do deve e do
haver de uma empresa que já provou ser de duvidosa saúde financeira.

quarta-feira, setembro 29, 2004

O Milagre da Música

É sabido que a vida de um músico é uma vida muito solitária. E não é só a dos grandes intérpretes, que não permanecem em lado nenhum por tempo suficiente, sempre a dar concertos por esse mundo fora, a dos meros mortais também assim é. São muitas as horas partilhadas apenas com um objecto inanimado, tentando transformá-lo no veículo perfeito de transmissão das nossas emoções mais recônditas; muitas horas a lutar contra as limitações físicas, as dificuldades técnicas; muitas horas a ouvir, para comparar e aprender ou receber influências estilísticas; muitas horas a analisar, para tentar compreender quais as intenções dos génios criadores das maravilhas que nos vêm parar à mão, legados com séculos de existência...
O desânimo instala-se muitas vezes. A solidão corrói...
Dias como o de hoje, fazem-me recordar a razão pela qual escolhi esta forma de estar na vida, muito mais que uma profissão. Não é só a devoção pela Música, não chega!
Foi um mero ensaio... nem sequer foi um concerto. Nos concertos acontecem sempre fenómenos extraordinários de comunicação com o público. Uma coisa esquisitíssima, que me fascina! Cada concerto é único e irrepetível. Nada do que ali se passsa é passível de ser explicado.
Um simples ensaio. Cinco pessoas, um quarteto de cordas e um «invasor» clarinete. Brahms.
Por acção de simples músculos em movimento, uma sala de concerto adormecida, ganhou vida por uns instantes... Brahms desceu sobre nós...
Foi a primeira vez que nos juntámos como quinteto, a primeira vez que tocámos esta obra. Gostaria de saber o que pensaria um habitante de outro planeta que ali entrasse, de repente, ao ver cinco pessoas com objectos diferentes nas mãos, a construirem um universo sonoro uno e coeso, a partir de folhas de papel todas diferentes umas das outras, cheias de simbolozinhos engraçados, fundindo-se como por obra de um tecelão mágico invisível... Desafiava-o a tentar descrever as sensações que fosse experimentando... Eu não consigo descrevê-las...
Olhares furtivos, coordenação de movimentos... até a respiração destes cinco elementos lhes permite comunicar, sem terem necessidade de trocar uma só palavra. E como comunicam!
É maravilhoso tomar parte de experiências como esta e alimentar o corpo e a alma com esta forma de Arte. Considero-me uma privilegiada!
O meu amor pela ciência é enorme! A opção não foi fácil. O meu cérebro continua a reclamá-la... Mas por maior descoberta que eu fizesse, tenho a certeza que nada se equipararia ao arrepio na espinha, reacção visceral, provocado pela combinação sábia de sons, em harmonia... e o quão gratificante é sentir-me parte integrante desse milagre, que é a Música...

Fim de Setembro

Setembro está cada vez mais próximo de Outubro. Está calor. Este Setembro alterou já o verão de calendário. O tempo quente não mente sobre a água gelada do mar.Gelada demais. A cidade marítima despede-se do verão e vai ficando cada vez mais vazia, quase sem gente nas suas ruas. A instalação sonora toca agora para poucos. São ainda menos os que se aventuram pela noite dentro. Dos despojos deste estio ainda resta a monocórdica melodia dos Ozon - "Maria i/Maria ú" - repetida até à exaustão por tudo que é sítio e onde haja música,isto é, por todo o lado.A canção é fácil de trautear e de decifrar, já que se trata de alguém que não esquece a sua paixão amorosa mesmo quando uma das partes decide romper. E, se for um verdadeiro amor de verão, sempre se pode enterrá-lo na areia ou então guardá-lo nas rochas e esperar que este sobreviva até à próxima época balnear.Quem sabe?
Setembro é também um mês que parte sem que antes os seus últimos dias tragam gastronómicas surpresas. Quem imaginaria há anos poder comer kebab, uma especialidade oriental, na cidade do peixe cozido e assado? E, para além disso,sobretudo quem for apreciador de outras cozinhas, pode, entretanto, saborear e degustar os pratos chineses, indianos e japoneses que os restaurante ofecerecem a preços razoavelmente acessíveis. Enfim...só podemos congratularmo-nos com tamanho cosmopolitismo. Pena é,que, empresário da restauração ou simples amante dos vegetais e fruta local, ainda não se tenha dado ao curioso desplante de abrir um restaurante vegetariano. Os vegetarianos portugueses ficariam eternamente agradecidos tal como aqueles que nos visitam também. É que este final de Setembro com temperatura anormal pede fibra e vitamina que rima com bom vegetal...

terça-feira, setembro 28, 2004

Dos Baixos II

Os Amigos



O primeiro passo é colocar o veículo nos carris. Quero dizer, soltar as amarras. Do veículo bicicleta. As amarras servem para fugir aos eventuais 'amigos do alheio' que alimentam o obscuro mercado negro das bicicletas. São dois cadeados. Um para a roda traseira, outro para prender a bicicleta a algum pedaço da cidade. Depois um ágil salto para o celim, demasiado alto (alguns aficionados dirão que não é bom para os pulsos), conquista-se o equilíbrio com algumas pedaladas iniciais, prólogo da jornada encetada. A viagem passa por vermelhas faixas exclusivas, rola sobre liso asfalto, salta um ou outro pequeno obstáculo ou passeio, por automobilistas cooperantes. Basta estar atento para apanhar pequenos detalhes da vida citadina, no seu normal quotidiano. Ou detalhes paisagísticos ou arquitectónicos que «valem a pena». Mudar de um ponto para outro da cidade representa uma pequena aventura e há sempre aquele friozinho lá no fundo de quem espera pela hora de saír, para finalmente poder sentir a brisa no cabelo.

sábado, setembro 25, 2004

"Museu das Festas da Sra. da Assunção"




Obsoleto: Antes de mais, queria só referir que a minha intenção era publicar esta "posta" com a respectiva fotografia, sem a qual, creio que o que tenho a dizer não faz muito sentido. Não consegui fazê-lo, e não foi por falta de fotografia... A minha relação com a informática... A ânsia de tomar parte no blog foi maior e não resisti a deixar o texto privado da sua indissociável companheira. Se, entretanto, conseguir colocar a fotografia à disposição, fá-lo-ei... - alteração à posta original feita por Fred com explícita autorização da autora. O texto não é descartável, de todo.



De certeza que já todos por lá passaram, como bons cidadãos poveiros que são. Eu tenho desculpa pois, embora poveiríssima de gema, físicamente, e por razões de força maior, sou poveira em "part-time".
Descobri-o, recentemente, numa manhã de Domingo, nas longas caminhadas com o meu pai, na zona da Marina da Póvoa, onde estão os barcos necessitados de reparação. A minha estupefacção foi enorme e a explosão de riso, imediata! Facilmente se compreenderia se pudessem ver a imagem: o título desta posta, é o que o barco tem pintado em ambos os lados, com letras coloridas, contrastando com a madeira negra que sobreviveu ao incêndio. É de um sentido de humor delicioso!
Creio que já passaram mais de cinco anos e o proprietário não recebeu qualquer tipo de indemnização pelo prejuízo que lhe foi causado. A cena típica em que ninguém assume responsabilidades. A Câmara atribui a responsabilidade à Comissão de Festas; a Comissão de Festas empurra para a Câmara e andamos nisto...
O que é certo é que o barco ficou todo carbonizado, vítima dos foguetes lançados aquando das Festas da Sra da Assunção. Muito pior poderia ter sido o resultado... Os exemplos são mais que muitos. E para quê? Que expressão tão primária de euforia!
Os alentejanos são "O" alvo de gozo da nação. Pois bem, só conheço uma povoação neste país (e corrijam-me se eu estiver enganada) onde esta manifestação ridícula e perigosa seja proibida, que é a Vila de Castelo de Vide. Duas meninas morreram, em tempos, graças a um desses foguetes e, a partir de então, a proibição instaurou-se.
Será que é precisa assim tanta coragem para fazer o mesmo? Qual a vantagem destes pedaços de madeira cheios de pólvora desnorteada? Provocar o susto? A agitação das nossas vidas cheias de monotonia? Será que os eleitores penalizariam um governante que acabasse com esta prática? Porque afinal, é só isso que interessa...
Ao dono do barco, a minha vénia, pela brilhante forma de protesto.

sexta-feira, setembro 24, 2004

Dos Baixos

A maresia já não faz parte do dia-a-dia.
Em vez dela uma teimosa chuva miúdinha, um céu sempre cinzento e um frio pouco amigável. Estamos na Flandres. Onde também se bebe boa cerveja. Ainda que o primeiro gole já não seja o melhor. E não nos faça olhar à volta, reflexivamente, no nosso íntimo gratos pela partilha com companheiros de interminável aprendizagem.
Outros tons de pele, outros não tão redondos vocábulos, outras atitudes perante a vida. O latino já não reina. Mas a simpatia e boa disposição fazem-nos sair à rua contentes, questionando se será desta que vamos encontrar rostos enfadonhos, carrancudos e onde vamos ser mal recebidos para o pequeno-almoço.

sábado, setembro 18, 2004

Canção do Entardecer

Há uma tristeza funda no ar
Que cavas ao entardecer
Trazes o cheiro pesado da vida
O travo cansado de querer

Diz-me lá onde andas tu
Exalando o teu odor
Feita flor que até se cheira
O pólen fácil do amor

Davas os teus dias pelo mês
O mês pela estação
Transportas Agosto no peito
Anseias por um novo verão

Refrão
Se a luz do sol cair
Talvez o ar te sustente
Talvez a onda rebente
E deixe a alegria entrar

sexta-feira, setembro 17, 2004

K.guitarrista do sol nascente I

Encontrei K.ao virar da esquina no centro da cidade marítima.Desesperado.Não dormia há três noites.Trazia três euros,a roupa do corpo e os olhos cansados de Barcelona. Algumas cervejas na noite mediterrânica e a pergunta: "onde é que é o Hotel...?" denunciaram-no e fizeram com que lhe levassem o dinheiro, máquina fotográfica e outros haveres que trazia consigo. Naquele instante em que me abordou,procurava encontrar um amigo seu mas que infelizmente tinha acabado de sair de Paris...ia obviamenete demorar.Nada feito.Apenas um inglês escorreito para comunicar com os transeuntes que passavam e indagando uma possível alguma ajuda financeira e poiso para dormir.Ninguém parecia estar interessado no que ele dizia.Revelou-me que o coração dele já tinha batido mais forte e que uma assistência social da invicta não se dignou a apoiá-lo,tal como se envergonhou de solicitar auxílio a duas compatriotas que viu passar.Vergonha ou códigos de honra apertados?
K.tem cinco cêdês editados,viveu um mês em Londres e já esteve em Chicago.Numa mesa de café,chegou-nos a dizer que tem uma paixão enorme pela guitarra mas que não a trouxe consigo.K. fumava cigarros americanos, não bebia cerveja preta e conhecia os preços dos hóteis.K.levantou-se, virou à esquerda e esfumou-se na noite...chegaria a dormir? teria encontrado o seu amigo? continuou a pedir ajuda?

O Teatro Garrett e a Inquietação

Recuperação do Teatro Garrett
Tudo indica que o velho Teatro venha a ser totalmente remodelado e que as obras possam arrancar ainda este ano. Pelo menos é essa a vontade da Câmara Municipal que já há alguns anos adquiriu o prédio onde funcionou, desde longa data, a sala de espectáculos mais identificativa da Póvoa.(...)
Passadas as eleições autárquicas, resolveu a edilidade poveira pôr mãos à obra, mesmo sem apoios governamentais, e dar seguimento ao projecto elaborado pelo arquitecto Rui Bianchi, assessor do Presidente,para dar uma vida nova a uma sala de espectáculos que está fechada há bastante tempo devido a um avançado estado de ruína. A obra está orçada em 300 mil contos (cerca de um milhão e quinhentos mil euros na moeda corrente) e contempla não só a recuperação do edíficio, respeitando, em larga escala, a sua configuração actual, como a criação de salas para reuniões, para a projecção de filmes por parte do Octopus, além de uma sede para o Varazim Teatro(...)


in O Comércio da Póvoa, 14/3/2002


Da Inquietação

O Teatro Garrett é uma sala necessária à cidade, não só para dar teatro,música e cinema à população mas também para albergar as associações ou grupos de pessoas que queiram lá trabalhar. Por isso,deverá ser uma sala ampla,boa arquitectura, bem apetrechada e equipada com os melhores materiais que houver no mercado. Neste momento, o que há é um enorme cartaz na respectiva entrada a anunciar o seu regresso e questões jurídicas e processuais por resolver.
Uma das coisas que o aparecimento do teatro não poderá fazer é criar de um dia para o outro agentes culturais e demais públicos que estejam interessados numa programação interessante e diversificada.E convenhamos,tem que haver produtores de eventos culturais na cidade tal como gente com "sentido de palco",como agora se costuma dizer.Isto só irá acontecer se houver trabalho continuado e investimento a sério em formação artística. Há uma Escola de Música e algum trabalho desenvolvido pelas associações mas está,na verdade, muita coisa por fazer...
Fazia falta por estes lados, uma cultura do "Faz tu mesmo!" que fosse capaz de criar movimento e ter essa capacidade de unir todos estes pequenos projectos que pululam por aí e dar-lhe uma dimensão ainda maior. Da mesma forma que esta cidade já teve uma dezena de bandas de Pop/Rock ou mesmo à semelhança de um pequeno filme que foi feito no Verão em vários pontos da cidade e que, muito embora ausência de meios e o obstáculo da nortada,criou uma dinâmica interessante. Ainda haverá por aí inquietação suficiente?

Cantiga do Contratado

Fiquei finalmente colocado
Em contínua posição frontal
Graduado em subtis concursos
Deste erudito Portugal

quinta-feira, setembro 16, 2004

Coreto 4

Teatro Garrett
Tivemos ocasião de ver ontem as obras do "velho" Garrett e confessamos a nossa admiração pelo que encontramos. Nada resta do que havia.A remodelação foi completa. Do velho Teatro surge-nos um teatro novo, elegante, que vai honrar sobremaneira a nossa terra, tão carecida estava duma casa de espectáculos que estivesse à altura do seu progresso.
Com a comparência dos representantes da imprensa e das autoridades foi feita a experiência da resistência dos lugares reservados à Geral e aos Balcões. Foram colocados centenas e centenas de sacos carregados de areia, com o peso de cerca de trinta quilos, e constatou-se a segurança da obra que muito honra o engenheiro que a delineou e o empreiteiro que lhe deu execução.
Segundo os melhores cálculos, o Garrett vai fazer a sua inauguração oficial no sábado, dia 6 do próximo mês de Agosto.

In Comércio da Póvoa, 30/7/1938

Pergunta: E,hoje, o que dizer? Sessenta e seis anos depois? Não continua a cidade carecida duma casa de espectáculos que esteja à altura da dita cidade da cultura e do lazer?

quarta-feira, setembro 15, 2004

O POVEIRO

O POVEIRO

Rosto duro queimado pelo ar
Cruel e fustigante da invernia
A sua rude faina de pescar
É uma longa epopeia de agonia

Rugem procelas...uiva a ventania...
Que importa ao pescador a voz do mar
Quando é preciso o pão de cada dia
Ou uma vida humana ir salvar?

Doce poveiro, resignado e crente,
Olhar sincero e puro que não mente
Orgulho de uma raça de eleição!...

Tu és talvez um misto de poesia
De heroi, de santo, mártir e de asceta,
Um sonho feito vida e coração.

IV Festa Marítima
Autora: Branca Cruz

In Comércio da Póvoa 8/10/1938

O que é uma cidade? II

A beleza da cidade é a confluência de muitas coisas que existem ao sabor do desejo humano. Uma espécie de íman que nos atrai permanentemente e faz com que muitos de nós já não consigam prescindir de nela viver, pois desde os gregos que a cidade guarda para si a reunião,a troca, o saber, o ócio, entre muitas outras coisas. O que sempre caracterizou as cidades foi o encontro (ou seria o reencontro?)de gente proveniente de sítios diferentes, com credos, cores e ideias diversas que fazem da cidade um espaço por essência cosmopolita e multicultural.

No tempo da ferrovia I


Ao tempo que já lá vai, encontrava-me eu na estação da Trindade, sentado num banco para dois à larga ou três à justa, esperando o comboio para a Póvoa. Precisamente à minha frente, a armação de ferro colocada no fim da linha ostentava uma placa dizendo Póvoa de Varzim, a negro sobre fundo carcomido pela ferrugem, e albergava, por cima, um relógio de fingimento que marcava cinco e vinte, a hora da partida. O Reguladora, ao fundo, ainda ia nas cinco e um quarto, com o ponteiro vermelho de ponta bojuda apressando-se, pedindo licença aos pretos, na descida firme até ao seis e na subida penosa de volta ao doze, onde recuperava o fôlego num momento e recomeçava a volta estugada.

Eis então que da boca negra do túnel chega o comboio. Tratou logo de se fazer anunciar, como era de regra, entoando um si bemol negligé com boa voz de contratenor. Não se confundiu nas encruzilhadas e bifurcações dos carris e dirigiu-se, convicto, para o cais à pinha. Levava o garbo que lhe permitia o massivo porte, de rei da selva, trotando em grande estrépito. Ai de quem se lhe metesse à frente...

Ainda veloz, ameaçava não parar, derrubando o batente de betão e tudo o que se lhe seguisse. Prevendo essa possibilidade, avaliei o perigo da minha condição, ali sentado mesmo no caminho que o mastodonte ameaçava percorrer, e levantei-me num ápice. Mas afinal era tudo encenação, para troçar dos incautos: acabou por se imobilizar a tempo, rindo numa forte travagem.

Apesar de a isto ter assistido, confesso que me surpreendi quando li a notícia, dois dias a seguir, de que um comboio poveiro se tinha recusado a parar na estação terminal da Trindade. Galgou-a em fúria, demoliu-a parcialmente, e destruiu ainda um quiosque fumador de Águia e um táxi putanheiro.

Canção do Fim do Verão

As rodas das bicicletas
a anunciar paragem
a sede dos baixos
a nortada na paisagem

Cinco pãezinhos de leite,
quentinhos,por favor,
Já não temos trocos,
ficaram nos baixos,sim senhor...

O nariz suporta mal
armários e naftalina
o cheiro da terra
o nevoeiro na retina

Refrão
O Outono chegará
Tirem as camisolas de lã...
lá...lá...lá...lá...lá...
O estio p´ró ano voltará
lá...lá...lá...lá...

O Agosto é na Póvoa

Gozando a distância que nos parece aproximar, viajando ainda ao sabor do aroma que emana do bacalhau no forno, que nos espera para uma refeição bem portuguesa (poveira, porque não?) dou o meu primeiro contributo para o aliciante projecto Poveiro.
Ainda não como cronista, enviando novas dos países Baixos, mas já com a nortada na pele, a mesma que nos ajudou, dificultou, enfim conviveu connosco quando pedalávamos para terras de Aguçadoura e além-Póvoa. As jornadas ao fim da tarde são apenas uma fracção do que fica gravado do nosso Agosto. Momentos que nos fazem olhar para trás e sentir um arrepio, porque sabemos que tudo tem um fim. E que tornam triste esse facto.

terça-feira, setembro 14, 2004

Coreto 3

Lancha Poveira
Um dos maiores símbolos da nossa cidade marítima é a lancha poveira que, segundo os entendidos, é só um tipo de barco. Desta forma, podemos encontrar a lancha grande que se dedicava em exclusivo à pesca da pescada, já que na pesca da sardinha eram usados o batel e a lancha pequena, servindo a catraia grande para a pesca do alta na busca da raia e a catraia pequena para a pesca da sardinha. O espinel e o caíco tinham como função a pesca da faneca. As dimensões de cada tipo de barco também variavam: o caíco podia ir até aos 13 metros e a lancha grande até aos 14, tal como os outros podia ter apenas 4 a 5 metros.
Esta lancha poveira tinha um mastro possível de desarmar e de inclinação para a ré capaz de erguer uma vela trapezoidal que depois se fixava à ré. De cada lado estavam 4 a 5 remos e um grupo de remadores considerável tal como a sua força braçal. Quem os via a entrar na barra dizia que era um espectáculo inaudito. Hoje há uma réplica da lancha poveira na marina da Póvoa que é usada em determinadas ocasiões(já esteve inclusive na Expo 98) e há também um vídeo da sua construção e feitura.

Coreto 2

Clube Naval Povoense
«Animado pelo grande entusiasmo que nesta vila despertou a última regata, o grupo de rapazes promotores desta diversão, para dar maior incremento a este género de Sport, resolveu fundar nesta vila um clube - Clube Naval Povoense. Para tal fim já esse grupo encomendou quatro barcos destinados ao clube, os quais devem estar prontos em 25 do próximo setembro, para tomar parte numa brilhante e grandiosa regata que naquele dia se realizará dentro da enseada desta vila. (...)
Rejubilamo-nos imenso em dar esta interessante notícia aos nossos estimáveis leitores, e aos entusiastas fundadores do clube naval endereçamos um cordial abraço por tão louvável iniciativa, que bem mostra o quanto eles se esforçam por engrandecer o bom nome da nossa terra.
Avante pois!»

In o Comércio da Póvoa de 25/08/1904

segunda-feira, setembro 13, 2004

Coreto 1

O Clube Naval Povoense completa em 2004 o seu centésimo ano de existência.

Uma companhia para ler o mundo

Este é o tempo onde impera o novo. É mais fácil terminar do que continuar. Este é o tempo volátil em que nada resiste à voragem dos dias, nada dura, porque a dita há muito que se foi e a actual democracia do consumo diz-nos para mudar, se possível, de casa, de carro, de companheiro/a e até do próprio rosto que transportamos diariamente.

Neste tempo em que tudo se esgota e em que nada parece ser mais importante que o horror televisivo e o terror de deixar de acreditar no Outro, nos outros, ouvi hoje uma voz doce e experiente, a meio de uma cerimónia, dizer: "Não pretendo preencher a minha solidão mas apenas uma companhia para ler o mundo".

Campeões



Eu não vi. Contaram-me. Da terceira divisão até à primeira sempre a subir. A festa foi tão grande que a cidade saiu toda à rua para festejar. Dizem-me, e eu acredito, que havia camaradagem, futebol atacante, amor à camisola. Às vezes, confundem-no com o nome da cidade. Às vezes, soltam-me à memória fotografias antigas e outras histórias de um tempo que não vi mas que ainda pressinto a sua grandez. Tudo isto apenas me aumenta a frustração de nunca os ter visto jogar. E como eu gostava de poder voltar a dizer: a minha equipa é o Varzim Sport Club!

Poveiridade

Eu não nasci na Póvoa. O implacável Bilhete de Identidade denuncia tudo: o meu nome e ascendência, solteiro, um metro e oitenta e sete, nado a oito de Abril do ano da graça de setenta e nove, sem indicações eventuais, e pumba, naturalidade Coimbra, freguesia de Santa Cruz.

E, no entanto, quilhado está quem me questione a poveiridade. Respondo-lhe logo com um «aie!» preambular, enrouqueço as cordas vocais imitando os pescadores, que as têm danificadas pelo ar marítimo, solto meia dúzia de caralhadas, e assim demonstro que tenho a barba tão rija quanto frio é o mar que nos enrola e à nossa areia.

Pois a Póvoa é o mar e o mar é a Póvoa, já se sabe. E o mar da Póvoa não é um mar como os outros, indiscutível também. É um mar viril, de macheza, bruto como as casas, vivo nas marés, inclemente na morte, um mar de guelra, portanto. Ostenta o brio nas cristas das ondas que reluzem às tardes de Verão, arqueja e rosna de mau feitio na bruma da noite. De caminho, exala maresia por todos os poros. O poveiro banha-se nas suas águas, aspira-lhe os eflúvios, e, natural e necessariamente, herda-lhe as qualidades. Não tem medo do carrasco, mas respeito pelo irmão.

O poveiro que se preze suporta mal a distância do mar. É um sufoco, uma opressão, uma incompletude. A primeira vez que, desesperado por uns meses de separação, lá consenti em abafar a rebarba numa praia fluvial, ia morrendo de indignação e contrariedade. Que tísica e desengraçada comparada com a robustez altaneira daquela por que ansiava! Fraco, insignificante, diminuto sucedâneo!

Ser-se de uma terra é como ser-se de uma pátria. É um orgulho mal mascarado, uma estirpe que nos determina, um amor (como todos) irracional. Mas é, mais do que ver nela um infinito paraíso de qualidades inesgotáveis, ter-lhe o apreço de lhe querer bem, e a revolta pelos males que lhe surgem, os ostensivos e os subreptícios.

Para falar de tudo isto não faltarão oportunidades aqui no novel O Poveiro. Por agora, dou como cumprida a minha posta de apresentação.

domingo, setembro 12, 2004

O Regresso



É um filme de Andrei Zviaguintsev e é anunciado como o novo Tarkovski (isto não é importante, mas convém lembrar). O Regresso é um filme seco, duro, um olhar tenso que megulha na amargura da relação entre dois filhos e um pai, um movimento à volta do lodo e das águas que turvam os afectos e a memória. Algumas imagens de tão belas, perturbam. As palavras e os diálogos em língua russa de tão crus soam a gelo puro e é por isso que os momentos iniciais do filme estas personagens rebentam o nosso cinismo a todo o instante. Pela fragilidade contra a cobardia dos fortes, pois há sempre uma mãe que nos afaga a dor quando já ninguém nos consegue amar num lugar tão frágil como o mundo.