sexta-feira, fevereiro 25, 2005

A república das bananas!

Na senda do que tem sido escrito, republico aqui uma pequena entrevista, muito significativa, do Prof. Hermano Saraiva.
Note-se que não pretendo com isto manifestar pontos de vista pessoais nem nada que o valha, mas sim dar a ler uma outra perspectiva, bastante interessante por sinal, de algo bastante relevente na nossa história recente para a actualidade e que talvez possa também ajudar a limar algumas arestas..


Entrevista ao Prof José Hermano Saraiva (in
Semanário 5 de Outubro de 2000)


"Noventa anos depois, podemos dizer que foram
cumpridos os princípios da República?

Tenho que responder a isso com uma pergunta. Será
que a República tinha princípios fundamentais? Não
tinha. A República mantém o estado liberal,
pequeno-burguês, da última fase da monarquia. A
República não traz nenhuma inovação sob o ponto de
vista da filosofia política em Portugal.


Mas não se inspira nos princípios da revolução
francesa: igualdade, fraternidade e liberdade?

Tudo isso se aplica à revolução de 1820. As
repúblicas do D. Carlos, ou do D. Luís, ou da D.
Maria, inspiram-se em tudo isso. Havia liberdade
completa. Podemos até dizer que havia muito mais
liberdade de imprensa antes da República do que
depois. É uma coisa curiosa como é que foi possível
criar a ideia de que foi a República que trouxe
esses valores. Esses valores existiam fortemente
implantados, teoricamente, desde 1822, mas na
realidade, depois do triunfo militar dos liberais,
porque até certo ponto, porque, em Portugal, é muito
difícil fazer uma revolução porque, no dia seguinte,
as pessoas aderem todas, ou seja, o mesmo pessoal
continua a servir os novos regimes. Foi isso que
aconteceu na República, não há assim nenhuma grande
mudança.


Então, o que aconteceu?

O que há é o triunfo de um partido, o Republicano,
que até aí tinha estado fora do poder, e que
precisou de arranjar empregos para os seus sequazes.
Então, o Diário de Governo passou a publicar grandes
listas de pessoas com o título de revolucionário
civil. Houve centenas de publicações de nomes de
pessoas que tinham a qualificação de revolucionário
civil. Um pouco como, a seguir ao 25 de Abril, houve
os anti-fascistas, que chegaram a ter nomes de ruas,
mas não eram muitos. Percebeu-se a tempo que ser
anti não era coisa nenhuma. A gente só é o que é,
não é o anti. A República trouxe essa gente e trouxe
também grandes dificuldades, porque, em 1910,
começam a processar-se grandes mudanças, começa a
indústria a ter já grandes contingentes de
trabalhadores. Portanto, começa a haver verdadeiros
problemas sociais e a haver aspirações socialistas e
laborais, de limitações do horário de trabalho, de
pensões de invalidez - toda essa política social que
hoje se reivindicamos todos os dias -, mas isso
põe-se como novidade em relação à República.


Essas reivindicações sociais só começaram em 1910?

Não, não, vêm do tempo de D. Carlos. Os ministros
socialistas são do tempo de D. Carlos. A partir de
D. Carlos os socialistas não voltam ao poder, ao
contrário do que se julga. Há aí um período de uma
grande instabilidade, por um lado, um grupo de
anarco-sindicalistas que reivindicam garantias no
trabalho, mas, por outro lado, põem em causa a
própria existência do Estado burguês. Por outro
lado, os republicanos conservadores da linha do
Brito Camacho, da linha do António José de Almeida,
tudo isso é gente muito conservadora que quer uma
República na ordem, como eles diziam. E isso conduz
à nossa entrada na Grande Guerra que, provoca,
indirectamente, o fim da I República devido à
conflituosidade social, à depreciação da moeda, ao
empobrecimento completo de uma classe que eram os
chamados proprietários, os donos das casas feitas
nas cidades depois do comboio. Antes da República há
uma coisa muito importante que é a política de obras
públicas do Fontes Pereira de Mello, que começa em
1850 e vai até ao D. Carlos. Isso permite trazer
para Lisboa os excedentes da produção agrícola,
enriquece muita gente, cria as nossas avenidas novas
e cria a classe dos proprietários.


E essa classe empobrece com a Grande Guerra?

Exacto. Porque, com rendas de 50 escudos dava para
viver na opulência e depois da Guerra 50 escudos são
uma esmola. Os proprietários sentem-se atacados,
essa gente torna-se inquieta, começa a haver o
chamado perigo da revolução comunista, porque há a
revolução de 1917 na Rússia e isso alarma muito os
burgueses dos países conservadores e isso conduz
directamente ao 28 de Maio.

Portugal beneficiou ao mudar da Monarquia para a
República?

Na minha opinião, tínhamos um grande político, que
era o rei D. Carlos, e a morte dele foi um grave
prejuízo para o País, porque não conseguimos
refazer-se disso na I República, uma vez que não
encontramos nenhum grande estadista. O homem de mais
valor que aparece na I República é o Afonso Costa,
mas ele teve sempre contra si uma reacção fortíssima
das forças dos sectores da direita. Em parte porque
ele, como foi ministro da justiça, nessa qualidade
conduziu uma política anti-clerical muito intensa e
atirou muita gente contra ele e acabou por sair do
país. Quando veio o 28 de Maio ele já estava fora de
Portugal, mas era o único homem invulgarmente dotado
de visão política. Os outros, enfim... Não tivemos
um grande estadista e isso também nos prejudicou
muito. Esses anos da I República são anos de
desagregação do Estado, de conflituosidade social,
são anos em que se acentuou o nosso atraso em
relação ao desenvolvimento económico europeu, são
anos em que se mantém uma taxa de analfabetismo
pavorosa. Chegamos ao Estado Novo com 80 por cento
de analfabetos. São anos infelizes. Com a República
perdeu-se mais do que se ganhou.


Mas com a República passa a poder-se sufragar o
chefe do Estado, em vez de ser de forma
hereditária...

Vamos lá a ver, hoje, o chefe do Estado é eleito
pelos portugueses, mas na I República era eleito
pelas câmaras de deputados e do Senado. Os deputados
e os senadores é que escolhiam o Presidente. É isso
que explica que o primeiro Presidente da República
seja o Manuel de Arriaga, que era um advogado
açoriano completamente desconhecido em Portugal.
Como é que este homem é eleito chefe de Estado? Bom,
exactamente porque o Arriaga era um conservador e no
pequeno círculo parlamentar, naquelas combinações, é
possível eleger um homem como ele, que era um homem
sério mas que de maneira nenhuma era um vulto
nacional. Não teria sido possível eleger, nessa
altura, um grande vulto que estivesse fora do
Parlamento. Era uma República excessivamente
politizada.


Quando é que o povo passa a intervir de forma
decisiva na eleição de um Presidente da República?

Nunca. Nem depois do 25 de Abril. Continua,
evidentemente, a haver jogos políticos, tudo isso
são convenções. Quem ganha as eleições é quem tem
dinheiro para fazer campanhas e as pessoas votam em
quem tiver a melhor campanha. O Presidente é
proposto pelos partidos e tem atrás de si toda a
máquina partidária. Está claro que pode ser ou não
ser uma grande figura nacional, não estou a discutir
as pessoas, mas o sistema permite que no jogo
partidário, e já temos visto, se proponham à
candidatura pessoas que estão muito longe de
merecer, sequer, o respeito nacional."

5 Comentários:

Blogger Arba:a disse...

Depois de tanto tempo "ausente", volto ao blog. E eis que me deparo com uma acesa discussão que (em minha opinião) nada abona a favor de esquerdas/ direitas/ monarquias/ e afins... Então não é que se perde tempo a discutir as pessoas que interpretam ideais? Creio ser fácil perceber que a razão toca em todas as opiniões e de todas se afasta. Senão vejamos: parece-me claro que o pior deste mundo é de facto o Homem, mas o melhor também vem da nossa espécie; então para que se discutem interpretações erradas, abusivas e totalmente deturpadas (feitas por homens "menores")de valores e ideais (que vêm de homens "maiores")?
Além disto, parece-me também extremamente redutor ver apenas os extremos de todo um espectro, porque realmente é preciso cair "na vida real". E a vida real prova-me que o extremismo, seja ele qual for, é sempre uma visão distorcida de um ideal. Deixo uma nota de rodapé para que também a Psicologia seja chamada à discussão: aprendi que todo aquele que alcança o seu ideal, fica com a vida "acabada", encerrada! Portanto o que importa é mesmo o caminho que se faz para alcançar ideais. E importa também que não reduzamos a condição humana a uma qualquer verdade absoluta que sirva a todos, tornando-nos meros robôs acéfalos, sem pensamento crítico.
Os melhores livros, poemas, as melhores pinturas, esculturas, musicas...foram da autoria de homens e mulheres com visões muito diferentes da política que nos rege, sendo portanto muito difícil para mim escolher um génio em detrimento de outro!! Assim, parece-me um desperdício de tempo tentar discernir qual o melhor ideal para TODOS, não aceitando que todo o espectro é importante para que dentro dele se deambule. Parece-me que o caminho deve ser sempre o da análise crítica e racional das várias vertentes de um todo que, sem essas mesmas vertentes, provavelmente definharia e acabaria por morrer. O que lá vai, é certo que lá vai...seja de direita, seja de esquerda, seja preto, seja branco, seja amarelo. Faça-se agora e sempre um novo e melhor caminho.

2:31 da manhã  
Blogger Arba:a disse...

Bem, Bruno...reli o meu post e parece-me que fugi ao tema que lançaste para dar uma opinião geral sobre os vários posts que pude ver no blog. No entanto, pareceu-me mais importante dar a minha visão global, tentando, como tu, conseguir ficar minimamente neutro. Abraço

2:37 da manhã  
Blogger BeanSprouts disse...

Hmmm... Suponho que tens toda a razão e que o caminho que a discussão tomou não foi o melhor... quando também me apercebi disso já era demasiado tarde e já não podia voltar. O melhor que fiz foi parar de discutir.

1:29 da tarde  
Blogger Bruno disse...

Bom caros colegas bloggers,

a mim parece-me óbvio que tanto na discussão que originou tanto feedback como nos comentários que o seguiram, falou-se de alhos e bogalhos como duma mesma coisa se tratasse, i. é, batatas, quando se falava de grelos na verdade! Nem numa sopa à lavrador se vê tamanha aglomeração vegetal... Desculpem-me o sarcasmo barato, completamente não ofensivo e perjorativo. Mas quero só dizer que acho que devem ter mais atenção quando iniciam a falar tão apaixonadamente de política. Tendencialmente cometem-se tantas injúrias, ofensas e mal-entendidos; pequenas quezílias "quasi-clubísticas" levam a autênticos debates ferozes.
Não vejo a razão para tanto sururu.
Rui: ainda me hás-de explicar o que tem o socialismo do PS a ver com o nacionalismo-socialismo de Hitler...e porque carga de água tem um rótulo ("esquerda") que fechar várias atitudes e políticas bem distintas num mesmo saco??
Ah, já agora, ao votar na CDU, fiz um pouco mais que votar nos Verdes creio, e ainda assim foi esta apenas uma atitude específica num contexto específico, não acredito nesses rótulos ultrapassados, ainda que continuem a fazer sentido para muita gente.

Zézinho: nunca confundir arte com política, embora faça algum sentido o paralelismo que fazes. E sim, extremismos são apenas as arestas negras e ténues dum mundo como o nosso. Mas ninguém alcança o seu ideal, apenas se ilude nessa ideia e tenta convencer-se convencendo os outros. Digo eu..

Pedras, godos e penedos para todos, okok...mas viremos mais uma página do nosso blogzinho.
Continuemos esta saudável discussão in loco brevemente.

Abraços

11:43 da tarde  
Blogger BeanSprouts disse...

:)

10:31 da manhã  

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