terça-feira, dezembro 14, 2004

O sorriso mefistofélico

No séc. XXI, era das tecnologias da comunicação, permanecem os bombeiros poveiros apegados à velha tradição da sirene. Recebida a notícia de alguma calamidade, urge chamar os voluntários que estão recolhidos em suas casas, mas sempre prontos a acorrer. Toca-se pois a sirene, a lembrar os sinos a rebate de outrora. E os bombeiros vêm velozes, despejando à pressa o tinto que estavam a beber, mirando de soslaio a esposa contrafeita, apertando ainda o cinto das calças e os botões da camisa pela rua fora.

Isto a qualquer hora do dia ou da noite. O resto da população que se dane. Há calamidade, que diabo! Todos devem sofrer o sacrifício do seu sossego, mostrando-se assim solidários e fraternos com os que são atingidos pelos azares do fogo, das inundações, e do gato que não desce da árvore.

Mas não há telemóveis e afins?, pergunta o cidadão abruptamente acordado, pergunta o melómano interrompido nas suas sinfonias, pergunta o tasco de discussão em suspenso, pergunta o professor vendo a aula paralisada, pergunta o Romeu que leva com tamanho imprevisto enquanto declama um último poema fervoroso à sua Julieta.

Há pois telemóveis. Mas há também coisas que não se entendem e que nenhum sentido fazem. E há também, imagino, o sorriso mefistofélico do bombeiro encarregado de soar a sirene...

6 Comentários:

Blogger Fred disse...

Duvido que algum bombeiro tuga se ocupe em fazer descer gatos de algum ponto elevado da urbe. Imagem demasiadamente yankee.

A sirene funciona tambem como chamada para os caracteristicos e incontornaveis `mirones` que acorrem ao quartel para ver os carros sair, nao esquecamos. Ah, o nosso Portugal.

11:01 da manhã  
Blogger mfc disse...

E os mirones?
Como poderiam eles serem alertados para o momento único de extase de verem um incêndio?

8:36 da tarde  
Blogger Catritas disse...

Desculpem-me o humor, mas os mirones que se agitam com a sirene dos bombeiros comparada com os milhões que assistem impávidos à sirene do voyeurismo dos telejornais à hora do jantar,parece-me pouco,muito pouco.

9:11 da tarde  
Blogger Bruno disse...

Essa é que é essa Catri-boy! Os mirones por esse Portugal fora, e quem diz Portugal diz por esse mundo fora..

No entanto, no que à sirene respeita, acho que não é real pensar-se nisso..a não ser que existam (deviam existir) redes especiais grátis para esse tipo de serviços. Para além de que a sirene ainda é mais fiável, já que não desliga, e asim pode o telemóvel servir como 2º contacto...ou vice-versa mesmo assim.

10:37 da tarde  
Blogger Bruno disse...

Embora não seja bem a mesma coisa, este é apenas o ponto pequeno doutra situação aparentada que tão bem conhecemos na Póvoa..o farol.
Com tantos avanços tecnológicos e o GPS aí a dar-lhe, só mesmo a frota pesqueira portuguesa para precisar obrigatoriamente de faróis já que os barcos estão mal-preparados, velhos e a precisar de reforma. Para isso também não seria mau abolirem (EU) as pesadas cotas que temos que pagar caso pesquemos "demais", nas nossas próprias águas...!!

11:01 da tarde  
Blogger Olag disse...

Apesar das sirenes, que julgo singulares e eficazes, devo dizer que no meu ponto de vista, são os bombeiros a instituição mais nobre que eu conheço neste país (de merda).
Se bem me lembro, houve tempos em que se dizia “Padre não é profissão, é vocação”!!!
Eu ainda hoje digo : Só conheço BOMBEIROS por vocação!
O meu Bem Hajam a todas as corporações de bombeiros com sirene
E continuem a faze-la soar bem alto, sinal de dignidade como não conheço igual!!!

12:29 da manhã  

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