segunda-feira, novembro 01, 2004

O que é que mudou?!

"Luís Bernardo estava sentado à secretária de trabalho, entretido a ler os últimos jornais recebidos de Lisboa. A grande sensação de momento na capital era a expansão, já em números razoáveis, dos primeiros automóveis, e a realização das primeiras corridas de automóveis, dotados «com motor de explosão, movido a gasolina, capaz de transportar o chauffeur e ocupantes a uma velocidade de cinquenta, sessenta ou até setenta quilómetros por hora!». Ele lembrava-se ainda que o primeiro encomendado, uns anos antes, fora um Panhard-Levasseur, para o conde de Avillez, e, logo na viagem inaugural, entre Lisboa e Santiago do Cacém, registara-se o primeiro acidente mortal causado por um automóvel, quando um alentejano, montado no seu burro e surpreendido pelo aparecimento daquele estranho engenho, se chegou perto demais para o observar, e foi atropelado pelo chauffeur, com a consequente morte do burro. O jornal recordava esse acontecimento histórico, ao mesmo tempo que contava que nas íngremes ruas de Santiago do Cacém, durante o Verão, quando o conde de Avillez passava montado no seu Panhard, era precedido por um criado de libré que avisava: «apaguem os fogareiros, que vem aí o gasolina!». Os cientistas portugueses consultados pelo jornal estavam divididos quanto ao futuro daquele meio de transporte: havia quem visse nele o princípio de uma época revolucionária que rapidamente destronaria todos os outros meios - como sucedera com os «eléctricos», que, poucos anos antes, tinham tornado obsoletos os «americanos», puxados a mulas - e havia quem lhes predissesse uma curta, atormentada e acidentada vida. O Professor Aníbal Lopes, da Faculdade de Sciencias, assegurava mesmo que «um engenho movido a motor de explosão só poderá ter como destino habitual aquele que o seu próprio nome indica: a explosão». Outros, como o Professor José Medeiros, viam no combustível utilizado - a gasolina - a razão primeira para a falta de futuro daquela máquina, «devido à raridade mundial de tal combustível, de que as poucas jazidas existentes à face do planeta não asseguram mais do que um par de anos de abastecimento a tão inútil como fugaz descoberta». Quem não parecia comungar desse pessimismos era o Sr. Henrique Mendonça, « ilustre colonialista e benemérito das ilhas de S. Tomé e Principe», que recentemente, informara o jornal, tomara de arrendamento as cocheiras do Palácio do Marquês da Foz, aos Restauradores, «onde se propõe montar o primeiro stand de venda de automóveis em Portugal, por conta da marca Peugeot». O mesmo Sr. Henrique Mendonça, que, recordava ainda o jornal, inaugurara há menos de um mês o seu magnífico palacete no Campo Santana, dominando toda a cidade do alto da colina, e cuja festa de inauguração batera, em fausto, abundância e glamour, tudo o que Lisboa estava habituada a ver, nos últimos anos. Luís Bernardo sorriu interiormente, ao pensar na visão, no fausto, no glamour e nos dotes de benemérito do senhor da roça Boa Entrada. Terá ele mandar ir dois pretos de S. Tomé, de tochas na mão, para receber os convidados à entrada da festa de inauguração do seu «magnífico palacete»?"
in Equador de Miguel Sousa Tavares

1 Comentários:

Blogger Catritas disse...

Constatamos deste modo que o combustível fóssil irá continuar...que o carro é ainda hoje o maior símbolo de "status" social e que passados tantos anos continuamos a fazer da estrada um verdadeiro cemitério(pois é,este fim de semana prolongado morreram 14 pessoas na estrada).Mudar? Quando?

2:20 da tarde  

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