segunda-feira, outubro 04, 2004

Um rótulo ameaçador

Para uma cidade que se arroga o epíteto de “Capital do Desporto, Cultura e do Lazer”, há que confessar que a Póvoa deixa muito a desejar. E há que admitir que este rótulo não é propriamente uma âncora eficaz, capaz de atrair turistas e visitantes em barda. Pior: em caso de inconformidade entre a teoria e a prática, como parece ser o caso, é passível de custar uma reputação ridícula à cidade e lançá-la sem retorno para o já mui preenchido anedotário nacional. Vamos por partes, então.
Desporto: com o Varzim em maré negra, a sede penhorada, o estádio envolvido num futuro negócio de especulação imobiliária, o Desportivo da Póvoa em queda, o atletismo à procura de melhores dias, continuamos à procura de razões para sorrir neste capítulo. Capital do infortúnio e deficiente gestão desportiva seria uma “tagline” bem mais apropriada.
Cultura: para além do mediático Correntes de Escrita e do reputado Festival Internacional de Música não há mais nenhum acontecimento digno de ser inscrito no mapa da cultura (com C maiúsculo, entenda-se) nacional. Aplaude-se a continuidade anual dos projectos, mas, como cidadãos de insaciável sede cultural que são aos poveiros, pede-se mais. Mais teatro (avança a passo de caracol a recuperação do Cine-teatro Garret), mais música (ai que saudades do Cais do Rock!!!), mais cinema (não fosse o Octopus e a oferta da Castello Lopes poderia impulsionar o mercado das lobotomias em Portugal), mais dança (temos de contentar-nos com as humildes sessões da Gimnoarte). Falta um pouco de tudo, na verdade. E lá voltamos nós a entrar no discurso evasivo das restrições orçamentais...
Lazer: acabaram-se os apoios, terminou o Capital Radical, extinguiram-se os motivos para incluir o vocábulo ‘lazer’ nos cartazes de boas-vindas à cidade. Resta-nos o Casino, pois claro, que já teve o condão de atrair comunidades inteiras de insectos oriundos dos quatro cantos do planeta à custa dos néons vermelhos e amarelos que semeou no topo de um edifício que é um dos últimos redutos arquitectónicos locais. Com alguma sorte, ainda cai o ‘l’ de lazer e ergue-se um ‘j’ em seu lugar. Tudo somado, talvez nessa altura possa formalmente proclamar-se, no que à actividade turística diz respeito, “paz à sua alma”.

1 Comentários:

Blogger Trocado disse...

Desporto e lazer, vão os dois de uma só cajadada com o passeiozinho dos tristes no Passeio Alegre ao domingo à tarde, de rádio de pilhas na mão para ouvir o relato, seguido de alarve lanche de francesinhas e cachorros no Guarda-Sol ou no Farol ou por aí.

Para a cultura é que é o diabo. Mas também não falta. Cá eu fico em casa a ouvir música.

A não ser que se concorde com o Gabriel Alves, que já defendeu a tese segundo a qual «o futebol é uma arte plástica» (depois de perorar sobre triangulações, linhas defensivas no rectângulo verde e passes em arco de grande beleza). Então o estádio do Varzim pode ser uma galeria importante.

Ou então, para fazer molho de francesinha é preciso arte.

Sem esquecer que no Enseada e no Buda também se ouve música (cultura) e se «curte a noite» (lazer).

3:39 da manhã  

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