terça-feira, outubro 19, 2004

O preço da interioridade?

Dezoito de Outubro de 2004. Vinte horas e trinta minutos. Entroncamento. Entrei num autocarro, na Póvoa, às 13.40h. O intercidades mudou de horário (obviamente, ninguém me avisou) e, em vez do das 16.10h, que me habituara a apanhar no ano lectivo anterior, por cinco minutos de sorte, consigo apanhar o das 15.10h. Acharam, por certo, que uma hora de seca, não era o suficiente para conhecer esta belíssima (notar o elevado tom de ironia) cidade (?), que é o Entroncamento. Agora sim! Com três horas de espera no Entroncamento, para obter uma ligação para Castelo Branco, já se pode ter uma outra perspectiva da terra dos fenómenos.
Entro no intercidades que me levará até Castelo Branco. A conversa entre os passageiros é sobre a pequena Joana, do caso da Figueira. Cada senhora, todas acima dos 50 anos, quer acrescentar mais um pormenor à narrativa horrorosa. Fico a saber que as últimas averiguações indicam que a criança foi esquartejada, guardada, aos pedaços, no frigorífico, e dada, periodicamente, aos cães (??). Recuso-me a ouvir mais pormenores horrendos! Mas que fazer?
A juntar a este cenário maravilhoso, há um homem com cara de débil mental, que me espreita por entre os bancos, de cima a baixo, de cinco em cinco segundos, enquanto esboço esta posta. Já tive coragem para lhe perguntar se queria alguma coisa (o que, para alguém tão pacífico e civilizado como eu, revela bem o estado de revolta em que me encontro), ao que ele me respondeu, muito naturalmente, que não. Desde então, tem diminuido a frequência de olhadelas que, ainda assim, é alta o suficiente para me por nervosa, muito nervosa! Irritada!
Ler nem pensar! Trouxe três livros para alternar, em caso de cansaço, mas já não consigo assimilar nada! E, além disso, o volume sonoro das conversas já não me permite concentrar, a esta hora do dia...
Resta-me o meu bom amigo Dvorak... É que a esta hora, nem luz existe, para contemplar a paisagem! Essa sim, vale a pena!
Dvorak, onde quer que estejas, obrigada por teres posto o teu intelecto ao serviço da música e por teres dispendido algum do teu precioso tempo a desenhar bolinhas e pauzinhos ao longo de uma folha pautada, para criar este quarteto para piano e cordas, Op. 87. Mal tu sabias a importância que esta obra iria ter: impedir o homicídio do passageiro perturbado que viaja à minha frente!
Será isto Portugal? Ou o comboio descarrilou para outra dimensão sem que eu me tanha apercebido?

5 Comentários:

Blogger Paulo Patrício disse...

Gente que escreve bem é rara. Vânia, peço-te, lança já a um blog a solo, nós merecemos!

12:58 da manhã  
Blogger Paulo Patrício disse...

Aquele a, sim, aquele ali entre o e o um, está a mais, como é óbvio. Fenómenos do meu teclado.

1:01 da manhã  
Blogger Fred disse...

Tempo não é atributo suficiente para o viajante português. Para se manter deste lado da fronteira da sanidade, deve estar equipado com bem mais.
Recorrendo ao Sérgio Godinho,
'Ai Portugal, dar-te conselhos é bem pouco original'
Quero dizer, não vale a pena dissertar sobre o nosso grau de evolução. Coragem Vânia!

9:46 da manhã  
Blogger Mauro disse...

Esta Povoa q estás a falar é a Povoa De Varzim? Se for me mande um email, maurotec@yahoo.com

2:07 da tarde  
Blogger monalisa disse...

Cara Vânia;
Conheci este blog há pouco tempo através de uma daquelas coincidências que só a internet nos proporciona.Li vários posts da tua autoria e,apesar de os respeitar a todos(como me habituei a fazer com tudo)não concordo com a maneira como abordas as questões da maioria.Mas isso,dirás tu,é um problema meu!Sim, mas para mim nem um problema é.Apenas a voz de um intlecto menos raro e disperso que os intercidades para Castelo Branco.
Aproveito a deixa para comentar "O Preço da Interioridade".O que retive deste teu post foi um profundo egoísmo e frustação relactivamente a tudo o que te rodeia(característica que,de resto,está bem patente na maioria dos outros posts).
Conheço,por experiência,a imcompetência da Refer e de tantas outras empresas de transpostes públicos que utilizo.Mas porque teria a Refer que TE avisar? Já pensaste na quantidade de pessoas que ficou prejudicada com essa repentina mudança de horários?Talvez não......Ou talvez sim.
Mas que importa isso.O que considero importante é que de vez em quando,temos que nos lembrar que sofremos as consequências das decisões e opções que tomamos.Decidiste ir naquele dia,aquela hora,naquele meio de transporte.Em certa medida,escolheste viver aquela situação.Tiveste azar!E quem não tem?
Podias simplesmente ter mudado de lugar ou de carruagem,ou deixares-te embalar no Quarteto de Dvorak.Mas em vez disso preferiste deixares-te embalar pela raiva e desgastar uns quantos anos de vida porque "alguém tão pacífico e civilizado" como tu não consegue suportar o facto de o mundo não girar à sua volta.Infelizmente,nesse aspecto,estamos todos no mesmo intercidades,minha querida.
Não me leves a mal.É só a voz de alguém que,contigo,partilha este mundo feito por cada um.

4:26 da tarde  

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