segunda-feira, outubro 18, 2004

Memórias da ferrovia (III)

Uma noite de Inverno, de regresso à Póvoa, dormia eu aninhado num canto da carruagem, cabeça encostada ao vidro gelado da janela, trepidando em sincronia com esta. Tinha embarcado exausto de um dia venturoso, e havia logo ferrado no mais profundo dos sonos, antes ainda da Avenida de França.

Acordei de súbito com uma mão que me abanava o ombro, em imperiosa urgência. Alarmado, abri os olhos e a custo readquiri o conhecimento da minha posição no espaço-tempo. O barulho do comboio aos trambolhões pela linha fora mal abafava a bátega que caía na escuridão do exterior. Habituando a visão à luz pálida da carruagem, reparei que para além de mim só habitava o compartimento o óbvio responsável pelo meu acordar contrafeito: o revisor. De farda e alicate na mão, símbolos de ferroviária autoridade, olhava-me impaciente; e também com um leve desdém, como se houvesse algo de censurável em dormir no comboio. Para mais, estava ele de pé e eu sentado, acentuando a submissão a que as circunstâncias inexoravelmente me vetavam.

Sentindo-me de pronto acusado de ignominiosa contravenção, tratei de procurar o bilhete, enquanto escondia a ansiedade num amplo e provocatório bocejo. A busca nos bolsos das calças, fazendo tilintar as chaves de casa, cedo se mostrou infrutífera. Passei à carteira. Vasculhei a zona das moedas e a das notas, tirei os cartões e inspeccionei o forro. Nada. Em jeito de desculpa, murmurei ao revisor um «Está difícil...», sem me dar ao trabalho de sorrir. O homem não respondeu, só se ouvia o comboio e a chuva, e aumentava-se-me o nervosismo com o lento passar dos segundos. Enfiei então as mãos nos bolsos do casaco, tacteando por entre lenços amarrotados e papelada sortida. Lá me vi obrigado a espalhar toda essa tralha sobre o banco, sentindo a repreensão crescente do revisor mal-humorado. Mas nem assim encontrava o raio do bilhete. Ainda me levantei, procurando no assento e no chão, também sem sucesso. Recordei-me que o bilhete era de ida e volta, sabe-se lá onde o teria enfiado aquando da ida... E ao longo de todo um dia não haviam faltado ocasiões para o ter perdido, bela merda.

Mas então, num esgar de passagem, num milagroso instante, dei com ele! Entalado no caixilho metálico da janela! Não me lembrava de o ter posto lá, nem era meu hábito fazê-lo, mas tive a certeza de que aquele era o meu bilhete, não sei explicar porquê. Peguei nele e estendi-o ao revisor, que me mirava atónito e desconfiado. Virou-o e revirou-o e inquiriu: «A que horas saíste hoje da Póvoa?» «Humm, às duas...», respondi. Batia certo com o carimbo aposto no verso do bilhete, atestando a hora a que fora vendido. Ainda intrigado, lá o picou, devolveu-mo, e seguiu caminho.

Embalado pelas bruscas oscilações do comboio, voltei a adormecer.

3 Comentários:

Blogger Paulo Patrício disse...

Essa tua obsessão pela antiga linha Póvoa – Porto é muito interessante, admito, mas não seria escrever melhor sobre os dias que correm, quer dizer, no estado em que está a estação, valia bem a pena. É que um começo deste tipo seria muito mais estimulante:

Memórias da Ferrovia (III)Uma noite de inverno, de regresso à Póvoa, dormia eu aninhado num canto do arruinado bar da estação, cabeça encostada ao único pedaço de vidro que sobrava da janela, trepidando em sincronia com esta. Tinha embarcado exausto de um dia venturoso, e havia logo chutado na mais profunda das veias, antes ainda de ter uma trip com a Avenida de França...

11:35 da manhã  
Blogger Paulo Patrício disse...

Sei lá, e podia terminar assim:

Embalado pelas bruscas oscilações e suores frios da ressaca, voltei a acordar.

Há que ganhar a vida, bute para a Praça do Almada arrumar carros.

11:38 da manhã  
Blogger Fred disse...

Oh não! temos um infiltrado entre nós. Soem o alarme

3:48 da tarde  

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