sexta-feira, outubro 08, 2004

Memórias da ferrovia (II)

Sol a pino, num qualquer anormalmente abafado princípio de tarde de outrora, apressava-me eu na direcção da estação, olhando de quatro em quatro largos passos para o relógio de pulso. «Vai ser mesmo à justa...», pensava. O suor já me pingava das têmporas, que a manhã tinha aparecido enevoada, enganando toda a gente, e vinha eu então com roupa em excesso.

Perder o comboio estava fora de questão, no Porto esperava-me o impreterível para daí a uma hora. Foi pois em estugadíssima marcha que entrei na estação e me dirigi à bilheteira, sem fila, uma sorte. «Um prá Trindade», ofeguei, pousando o dinheiro trocado no tampo do guichet. Mas mal recebo o bilhete ouço o comboio a apitar, anúncio da partida irrevogável.

Desatei a correr por ali fora. O comboio, ainda em marcha lenta, levava-me já considerável avanço. Mas eu era mais rápido e não julguei impossível alcançá-lo. Ou, mais provavelmente, nada julguei, e corri com quantas pernas tinha no mais irracional dos desesperos. À porta da última carruagem, um magote de militares incentivava-me com alarido. «Corre! Corre!» E eu lá ia, como um doido, estação fora. Alcancei o comboio, atirei com a mochila lá para dentro, e agarrei-me ao braço que um dos tropas me ofereceu, içando-me.

Não tive tempo para respirar fundo de satisfação. Mal meti os pés na carruagem o comboio dá-lhe para travar, começando então a fazer marcha atrás. Reparei que no cais a maioria dos passageiros ainda esperava para entrar, rindo do meu sprint esbaforido. Ainda hoje não vejo objectivo naquela simulada manobra que não a minha humilhação cruel. Os tropas gozavam que nem perdidos... Eu ri também (que mais havia de fazer?) e fui procurar um lugar do lado da sombra, em que a napa amarela não estivesse tão quente. Desfazendo-me de casacos e camisolas, preparei-me para os habituais cinquenta minutos de solavancos. O comboio partiu pouco tempo depois.

2 Comentários:

Blogger Vânia Oliveira disse...

Que saudades desses tempos... Coincidência das coincidências, também já tive que apanhar um combóio em andamento. Quem sabe, os mesmos tropas me incentivaram a correr para apanhá-lo e me agarraram para eu poder entrar na carruagem... Felizmente, no meu caso, ele já estava mesmo em marcha para o Porto e não elaborando alguma manobra para "Os Apanhados".
A parte pior foi a do bilhete. O apito desencadeou a reacção instintiva de apanhar o combóio e nisso o meu cérebro se concentrou. Missão cumprida! Mas eis que aparece o revisor e, a pessoa que me esperava no combóio, na incerteza do meu embarque, não tinha bilhete para mim... e eu também não. "São dez contos, menina" - disse o revisor. "Não pode ser, só pode estar a brincar..." - disse eu, muito atrapalhada, sem saber o que fazer. Sacou de um bloquinho, preencheu qualquer coisa e entregou-me. Era um bilhete, acabado de tirar, no valor de 210$00. Olhei para ele admirada e ele piscou-me o olho, como quem diz: "fica só entre nós"...

3:20 da tarde  
Blogger Fred disse...

Parece-me que a história do jovem corredor me foi contada por um amigo. Demasiado óbvia, pensei eu... Pertence certamente à categoria dos mitos urbanos...

3:34 da tarde  

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