quarta-feira, setembro 15, 2004

No tempo da ferrovia I


Ao tempo que já lá vai, encontrava-me eu na estação da Trindade, sentado num banco para dois à larga ou três à justa, esperando o comboio para a Póvoa. Precisamente à minha frente, a armação de ferro colocada no fim da linha ostentava uma placa dizendo Póvoa de Varzim, a negro sobre fundo carcomido pela ferrugem, e albergava, por cima, um relógio de fingimento que marcava cinco e vinte, a hora da partida. O Reguladora, ao fundo, ainda ia nas cinco e um quarto, com o ponteiro vermelho de ponta bojuda apressando-se, pedindo licença aos pretos, na descida firme até ao seis e na subida penosa de volta ao doze, onde recuperava o fôlego num momento e recomeçava a volta estugada.

Eis então que da boca negra do túnel chega o comboio. Tratou logo de se fazer anunciar, como era de regra, entoando um si bemol negligé com boa voz de contratenor. Não se confundiu nas encruzilhadas e bifurcações dos carris e dirigiu-se, convicto, para o cais à pinha. Levava o garbo que lhe permitia o massivo porte, de rei da selva, trotando em grande estrépito. Ai de quem se lhe metesse à frente...

Ainda veloz, ameaçava não parar, derrubando o batente de betão e tudo o que se lhe seguisse. Prevendo essa possibilidade, avaliei o perigo da minha condição, ali sentado mesmo no caminho que o mastodonte ameaçava percorrer, e levantei-me num ápice. Mas afinal era tudo encenação, para troçar dos incautos: acabou por se imobilizar a tempo, rindo numa forte travagem.

Apesar de a isto ter assistido, confesso que me surpreendi quando li a notícia, dois dias a seguir, de que um comboio poveiro se tinha recusado a parar na estação terminal da Trindade. Galgou-a em fúria, demoliu-a parcialmente, e destruiu ainda um quiosque fumador de Águia e um táxi putanheiro.

4 Comentários:

Blogger mfc disse...

Revejo-me nessa estação que nunca mais veremos.
O relógio a fingir era mesmo um achado!
Qual placard electónico, qual carapuça!

3:37 da manhã  
Blogger Fred disse...

Creio que qualquer poveiro ou não poveiro utente de transportes públicos guarda ainda estas e outras imagens na memória. Belos idos dias de visita à secreta e impressionante cidade do Porto.

12:56 da tarde  
Blogger Catritas disse...

Foram muitos anos de Póvoa-Porto nestes comboios de velha memória, tal como seu relógio da reguladora...há obviamente alguma nostalgia mas por vezes era algo secante e insustentável. A duração de 1 hora para vinte e oito quilómetros dói...já para não falar das carruagens cheias na hora de ponta e a bagunça dos domingos à tarde...

6:02 da tarde  
Blogger BeanSprouts disse...

Nem imaginas a sensacao que tive a ler este post ... foi assim como voltar aos meus 10 anos - tipo +- fugia de casa para ir para o Porto!!!!! e depois quando realmente tinha que e fazer essa viagem todas as semanas durante 3 anos ... QUAINT!!!

7:51 da tarde  

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